| POESIA INTERSIGNOS Do impresso ao sonoro e ao digital |
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Há treze anos, realizou-se a primeira exposição de Poesia Intersignos no Centro Cultural São Paulo, com pouco mais de três dezenas de poemas visuais expostos em painéis, todos de poetas brasileiros, sob minha curadoria. Eu tentava delimitar uma vertente da poesia visual brasileira que, distanciando-se do poema visual eminentemente verbal, feito exclusivamente de formas gráficas do texto, colocasse no centro da comunicação poética a imagem em suas mais variadas configurações: desenhos, fotos, numerais, rabiscos, gráficos, cores. A idéia era mostrar poemas em que a imagem participasse como elemento de significação na construção semântica do trabalho, que ela exigisse uma decifração conceitual do observador para a interpretação do poema como um todo. De sua intersemiose plena (conceitual e formal) com o verbal, nasce o poema intersignos.
A presente exposição dá continuidade a essas idéias, mas agora tendo em vista a explosão das formas comunicacionais que levou a poesia a experimentar com o universo do som, da imagem videográfica e com o vasto campo das novas tecnologias, sem deixar de lado o registro impresso. Se a poesia visual intersignos efetuava a exploração das possibilidades do impresso na fusão palavra/imagem, os poemas que aqui se exibem ultrapassam o espaço material do livro para se dar enquanto poemas-objeto, penetram no espaço ambiental do som para produzir a poesia sonora e incidem no espaço virtual das tecnologias para criar poemas digitais.
Assim como a poesia intersignos de anos atrás não queria inventar a poesia visual, mas distinguir-se enquanto um "setor" especial dela, a poesia exposta no Paço das Artes não quer criar a "nova poesia experimental" do próximo milênio, ou a poesia do "novo homem" das tecnologias da comunicação. Ela só quer expor como é possível encontrar uma poética espraiada pelos espaços extra-livros, em que permaneça a idéia de que a poeticidade é feita de uma interação formal e uma composição conceitual entre os signos verbais e os demais signos provientes de cada uma das técnicas que o poema usa. Dessa maneira, de uma lado, distingue-se de uma poesia pretensamente experimental que, no entanto, só reproduz a forma clássica da poesia como processo específico da verbalidade, mas envolto pelos artifícios das outras linguagens. De outro, distancia-se de uma postura ingênua que vê o simples uso da palavra em novas tecnologias como a invenção do novo mundo poético-midiático. A exposição procura incitar o observador a deslocar sua atenção das técnicas usadas para os modos como os signos se combinam e se articulam dentro dessas técnicas, em processos poéticos intersígnicos que destacam as funções formais, estruturais e semânticas de todos os signos involvidos no poema.
Com isso, a exposição intencionalmente faz conviver no mesmo espaço o impresso, o objeto tridimensional, o sonoro, o performático e o tecnológico, sem qualquer proposição de caráter evolutivo, afirmando a natureza cumulativa e interagente de técnicas de diferentes períodos da cultura, e contaminando a pretensa pureza tecnológica com a artesanalidade e o hibridismo de técnicas "obsoletas" e com a materialidade do corpo e dos gestos.
Um lugar privilegiado de discussão dessas questões, central para a poética e a estética contemporâneas, é a própria tecnologia digital em suas possibilidades ainda abertas de uso, tanto pelas novidades que elas podem vir a apresentar para a configuração da linguagem comunicacional quanto pelo impacto delas na sociedade que vai surgindo. Poesia Intersignos exibe uma série de poemas em CD-ROM, na chamada linguagem "multimídia". Primeiramente, eles não são "experimentos de textos poéticos escritos", mas processos intersígnicos de palavra, imagem, som, movimento, direções variáveis de leitura, em que imagem e som não se dão apenas enquanto acabamento da palavra. Adentrando uma nova configuração espacial que já não é mais o da forma códice do livro, a poesia necessariamente ultrapassa os limites do próprio signo verbal. Se o hipertexto se torna naturalmente hipermídia pela tendência à integração das linguagens dentro das tecnologias digitais, o poema digital também se faz de um tráfego entre signos de diferentes linguagens que, quando melhor realizado, bem poderia ser denominado intermídia (em substituição ao atual estágio inicial multimídia de exploração da linguagem digital em que há mais o acúmulo e sobreposição de diversos signos do que propriamente integração semântico-funcional entre eles).
No entanto, o poema, antes de penetrar o espaço digital, já havia saltado, na poética intersígnica, do livro para o objeto e para a sonoridade, onde, respectivamente, elementos como interatividade e imaterialidade, dois totens das nascentes (e ainda fragilíssimas) teorias de poéticas em novas mídias, estão realizados. O que importa, então, no uso dessas novas tecnologias é primeiramente a facilitação e o incitamento às realizações integrativas entre linguagens, em que, de novo, signos não-verbais não se reduzam ao papel de elementos meramente reforçadores do verbal. Por fim, fusão intersígnica dirige a prática criativa à fusão entre os gêneros do texto, onde a poesia penetra o campo da teoria, do conto, da informação enciclopédica. Tudo caminha para a formação de grandes sistemas de vasos comunicantes em que poesia, ficção narrativa, jogo, pesquisa científica, informação trivial, contato interpessoal sejam momentos de uma mesma prática produtiva.
Philadelpho Menezes