| Alguns Tópicos Referentes à Abdução em Peirce | ![]() |
Santaella (1992), no capítulo "Tempo da Colheita", faz um excelente resumo sobre o percurso evolucionário das idéias peirceanas sobre os três tipos de argumentos ou inferências, que passam pela coincidência com os três tipos de raciocínio até chegar aos três estágios da investigação científica.(1)
Resumidamente, se pode dizer que no inicio de seus trabalhos, Peirce considerava que todas as formas de inferência poderiam ser reduzidas ao silogismo Bárbara (CP 2.620), mas a noção peirceana de inferência evoluiu, e as inferências passaram a ser três tipos distintos e irredutíveis dos argumentos ou raciocínio.(2) Inicialmente Peirce incluía a analogia como o quarto tipo de raciocínio, mas posteriormente acabou reconhecendo que a analogia combina as características da indução e da retrodução. (CP 1.65)
Segundo Santaella (1993:74) a inferência peirceana é uma função essencial da mente cognitiva e o pensamento em todos os níveis apresenta um padrão semelhante aos de três tipos de processos: hipótese, indução e dedução. Assim a vida do pensamento, em todos os estágios e situações, é uma questão de formação e/ou exercício de certos hábitos de inferência.
Para Peirce, a inferência é um ato voluntário que culmina na "adoção controlada de uma crença como conseqüência de um outro conhecimento". É um processo causal que "cria" ou "produz" crença ou sua aceitação na mente de quem raciocina. (CP 2.442, 2.44 e 5.109) As inferências tem três níveis: o do raciocínio, consciente e articulado, e das inferências informais do dia-a-dia, sem apoio do controle lógico e aquelas que estão totalmente fora de nosso controle lógico (inconscientes e incontroláveis).
Em 1866, em "A Lógica da Ciências; ou Indução e Hipótese", Peirce introduz o termo hipótese ao lado da indução, contrariando "a certeza vigente na época" de que só há dois tipos de argumentos: dedução e indução. Posteriormente, Peirce reconhece a hipótese como uma inferência ampliativa diferenciando-a da indução.
Já em 1867, Peirce mostra a correlação das três formas de inferência com as três figuras do silogismo. Ao negar a intuição cartesiana, Peirce resolve o problema das premissas. Assim a hipótese é responsável pelos julgamentos perceptivos e pela introdução de premissas menores em geral. A introdução de uma nova afirmação universal, servindo como premissa maior pode ser vista como resultado da indução, sendo que dedução responde, então, pelas conclusões derivadas.(3) As inferências eram ordenadas segundo seu grau de certeza, sendo sua ordem a seguinte: dedução, indução e hipótese.
Segundo Santaella (1993:97), a teoria da cognição, a que Peirce chegou em 1868-69 e, que se completou na Teoria da Investigação, de 1877-78, juntava a crítica da doutrina da intuição com a postulação de novas fundações para a investigação, com base na concepção inferencial da mente cognitiva apoiada na teoria do pensamento-signo. Somente após a descoberta da Lógica dos relativos é que Peirce concebe os três tipos de inferências como tipos distintos e irredutíveis de raciocínio ou argumento.
Entre 1890 e 1900, Peirce introduz novas modificações substituindo hipóteses ou inferência hipotética por abdução. Daí para frente, as três espécies de inferências tornaram-se os três estágios da investigação científica, conectados como um método, e a inferência começou a ser tratada principalmente como processo metodológico.
O uso da palavra abdução não é original em Peirce, mas ele foi o primeiro autor a empregá-la no contexto científico. Peirce traduziu a "apagoge" de Aristóteles como abdução ou seja aceitação ou criação da premissa menor como uma solução hipotética para um silogismo cuja premissa maior não é conhecida e cuja conclusão nós achamos ser um fato("we find to be a fact"). (CP 7.249)
Anderson(4) enfatiza dois pontos com relação a esta questão. Em primeiro lugar, a abdução não é um argumento necessário, mas sim provável (Terceiridade) ou possível (Primeiridade). Na abdução a aceitação da premissa menor e do silogismo é provisória o que leva ao segundo ponto, ou seja a abdução foge do sentido puramente silogístico e dedutivo do raciocínio.
Este ponto é crucial para a explicação peirceana da abdução como método e como forma lógica, pois à medida que Peirce se afasta das idéias aristotélicas sobre a abdução, a abdução passa a consistir no exame de uma massa de fatos que sugerem uma teoria. (CP 8.209).
A seguinte passagem mostra a autocrítica(5) que Peirce fez em 1902, a respeito de como se deu a evolução de suas idéias quanto aos três estágios da investigação.
Embora haja algumas confusões na diferenciação entre abdução e indução, pode-se dizer que Peirce nunca teve nenhuma dificuldade para diferenciar abdução e dedução, por serem dois tipos diferentes de raciocínio, ampliativos e explicativo respectivamente.
As confusões sempre estiveram na separação entre indução e abdução. O próprio Peirce admite que "confundiu, de certo modo hipóteses e indução ... em quase tudo que publicou antes do começo do século". (CP 8.227)
Numa outra passagem Peirce afirma que, quando após sucessivas tentativas, finalmente consegui esclarecer o assunto, os fatos demonstraram que a probabilidade propriamente nada tinha a ver com a validade da abdução, a não ser de uma maneira duplamente indireta." (CP 2.102).
A indução, de qualquer classe que seja não pode jamais originar idéias novas. Pode apenas confirmar ou não as hipóteses. Só a abdução introduz idéias novas, sendo a única forma de raciocínio propriamente sintética. Assim sendo, ela é meramente preparatória, é o primeiro passo do raciocínio científico, é o mais ineficiente, mas o único responsável pelas descobertas com que o homem explora e explica o mundo. A indução é o mais eficaz dos argumentos e o passo conclusivo do raciocínio científico.
Para Peirce, retrodução e indução voltam-se para lados opostos. Na retrodução, a ordem é da experiência para a hipótese (CP 2.755). Por indução pode-se concluir que os fatos similares aos fatos observados são verdadeiros em casos não examinados. Por hipótese se conclui a existência de um fato bastante diferente de tudo o que foi examinado, do qual de acordo com leis gerais, algo observado resultaria necessariamente. A indução é o raciocínio do particular para a lei geral, a hipótese do efeito para a causa. A indução classifica, a hipótese explica. (CP 2.636)
A indução infere a existência de um fenômeno tal qual foi observado em casos similares, enquanto que a hipótese supõe algo diferente daquilo que foi diretamente observado e freqüentemente algo que nos seria impossível de observar diretamente. (CP 2.640). A indução é um tipo de inferência mais forte do que a hipótese. As hipóteses podem ser provisórias e inferir fatos não diretamente observáveis. (CP 2.642)
A essência da indução está no fato de que ela infere de um conjunto de fatos outro conjunto de fatos similares, enquanto que a hipótese infere de fatos de um tipo para fatos de outro. Portanto, uma das diferenças entre hipótese e indução está na impossibilidade de se inferir indutivamente conclusões hipotéticas. (CP 2.642).
Outra distinção apresentada por Peirce entre indução e hipótese se refere às diferenças psicológicas e fisiológicas no modo de se aprender fatos. Indução infere uma regra, mas a crença de um regra é um hábito, e evidentemente um hábito é uma crença ativa. Toda crença é da natureza de um hábito, então a indução é a forma lógica que expressa o processo fisiológico de formação de hábito. (CP 2.643)
A hipótese substitui uma complicada massa de predicados ligados a um tópico por uma única concepção. Há nesse processo uma excitação que denominamos emoção, daí podermos dizer que a hipótese produz o elemento "sensual" do pensamento e a indução o habitual. (CP 2.643).
Numa outra passagem (CP 2.643) Peirce afirma que um dos méritos da distinção entre os tipos de raciocínio está no fato de que algumas ciências apresentam o predomínio de algum destes tipos, por exemplo as ciências classificatórias como botânica e zoologia seriam puramente indutivas, enquanto que outras como geologia e biologia seriam ciências de hipóteses.
Segundo Santaella é muito comum comentadores extrapolarem os limites da abdução confundindo-a com a indução abdutiva, uma espécie de indução vaga(6), já que a indução abdutiva (CP 6.526) consiste em testar uma hipótese de que S é P, observando-se se S tem caracteres peculiares a P.(7)
A teoria dos três tipos de inferência foi o caminho que Peirce encontrou para a questão dos métodos das ciências. Sendo assim, a palavra investigação não é usada para designar a descrição de algum fenômeno mental, mas sim pelo fato de que algumas de nossas atividades são guiadas por signos e símbolos que podem ser submetidos a uma crítica lógica,
Após esta breve introdução sobre a evolução dos conceitos periceanos, podemos voltar para a abdução propriamente dita. A abdução é o "primeiro degrau do raciocínio científico" (CP 7.218). A abdução tem a ver com a geração e recomendação de hipóteses explicativas. No que diz respeito ao método científico, a abdução é "meramente preparatória."
A abdução está sujeita a algumas condições, ou seja, a hipótese não pode ser admitida, mesmo enquanto hipótese, a menos que se suponha que ela presta contas dos fatos ou de alguns deles. Mas o estímulo para adivinhar foi derivado da experiência. A ordem vem da experiência para a hipótese. (CP 2.755) A forma da inferência, portanto, é esta:
Antes de se explicar as características principais da abdução é interessante entender a visão peirceana do que significa uma hipótese:
Numa outra passagem, Peirce explica que a hipótese pode ser definida como um argumento que se desenvolve a partir da suposição de que um caráter do qual se sabe que envolve necessariamente uma certa quantidade de outros caracteres, pode ser provavelmente predicado de qualquer objeto possuidor de todos os caracteres que se sabe envolvidos por esse caráter." (CP 5.276)
Cabe à abdução estudar fatos e projetar a teoria que os explique. A justificativa da abdução decorre do fato de ser o modo como se deve chegar à "compreensão das coisas algum dia". Para Peirce, ninguém é louco para negar que a ciência efetuou muitas descobertas verdadeiras, contudo, cada um dos itens singulares da teoria científica que estão hoje formados deve-se à abdução.(CP 5.172)(10)
Peirce distingue dois momentos na fase abdutiva(11): o primeiro momento é simplesmente a origem de todas as conjecturas que podem compor a lista de possíveis explicações para o fenômeno em questão, não é nada mais que simples advinhação.
O primeiro momento da abdução é um momento heurístico, em que certas idéias se associam na mente de maneira incontrolável. (CP 6.302) Este primeiro momento também é caracterizado por um aspecto criativo que Peirce considera como uma habilidade natural instintiva, que não pode ser reduzida a procedimentos ou fórmulas restritivas.
Numa outra passagem Peirce enfatiza a afinidade genética entre a mente humana e as leis da natureza:
Este instinto que explica porque as pessoas fazem suposições corretas de modo tão freqüente, é descrito como "uma salada peculiar...cujos elementos-chave estão em sua falta de fundamento, sua ubiqüidade e sua confiabilidade"(Ms 692:24)(13).
Assim se todo conhecimento depende da formulação de uma hipótese, no entanto, de um fato real, apenas se infere um pode ser (pode ser e pode não ser). Porém, observa-se que freqüentemente resulta ser positivo, o que torna este fenômeno "o mais surpreendente de todos os prodígios do universo".(CP 8.238)
Por outro lado, não é possível entender a abdução sem nos remetermos à cosmologia peirceana. Quando Peirce diz que o homem tem um certo instinto(15) para a verdade, significa que a mente humana, como resultado dos processos evolutivos está predisposta a fazer suposições corretas sobre o mundo. Este instinto é uma faculdade que dirige a mente em direção ao verdadeiro mesmo à luz do acaso e do erro.
A conexão entre abdução, instinto e o processo de evolução é um ponto crucial na teoria peirceana. Para Ibri,(16) se nós formos entrar no mérito do instinto, nós temos que entrar no mérito da idéia da própria evolução do organismo humano, da própria evolução do homem.
Peirce sustenta que a habilidade do pintinho ciscar a comida é em todos os aspectos semelhante à inferência abdutiva, porque ele escolhe enquanto cisca sem raciocinar, ele não o faz deliberadamente.
Comparando a capacidade de abdução do homem como os poderes musicais e aeronáuticos dos pássaros, Peirce acrescenta que há suficiente afinidade entre a mente de quem raciocina e a natureza para tornar válidas as hipóteses, quando são confrontadas com a observação através da comparação" (CP 1.121)
Para Peirce, de acordo com a doutrina das possibilidades, seria praticamente impossível supor a causa de qualquer fenômeno como puro acaso. Assim, não pode haver nenhuma dúvida de que existe uma afinidade entre a mente humana e a natureza. Considerações sobre a estrutura do universo não deixam dúvidas acerca do fato de que a mente do homem, tendo se desenvolvido sob a influência das leis da natureza, e por esse motivo, de certo modo, pensa naturalmente segundo o padrão da natureza. (CP 5.604, e 7.39) Este é um dos fatores de sobrevivência do homem. O evolucionismo torna-se central na lógica da investigação de Peirce. É a "âncora mestra da ciência" (CP 7.220).
Os elementos da hipótese já estão em nossas mentes, mesmo antes que tenhamos consciência deles, "mas é a idéia de reunir aquilo que nunca tínhamos sonhado reunir que lampeja a nova sugestão diante de nossa contemplação".(CP 5.181)
Peirce descreve a abdução como um instinto racional, "spontaneous conjectures of instintive reason" (CP 6.475), enfatizando ao mesmo tempo sua natureza racional e instintiva (capacidade de adivinhar a hipótese correta). O momento do "insight" é instantâneo, mas o processo de construção e seleção das hipóteses é consciente, controlado, voluntário, deliberado sujeito à crítica e auto crítica.
A abdução não necessita de razões, porque simplesmente apresenta sugestões, ela sugere que alguma coisa pode ser. (CP5.171). O homem não consegue dar uma razão precisa para as suas melhores conjecturas (CP 5.173), por isto Peirce qualifica como mágica esta faculdade. (CP 6.476) Em outras passagens ele usa os termos "il lume natural", luz natural, luz da natureza, "insight" instintivo. (CP 5.604, 6.477, 1.80).
Segundo Peirce os processos pelos quais temos intuições sobre o mundo dependem dos julgamentos perceptivos, que permitem a dedução de proposições universais. Os juízos perceptivos são juízos impostos em termos absolutos à nossa aceitação através de um processo no qual somos incapazes de controlar e por conseguinte criticar. (CP 5.157)
Para Peirce os julgamentos perceptivos são o resultado de um processo não suficientemente consciente para ser controlado ou melhor, não controlável e, portanto não plenamente consciente. Tanto o julgamento perceptivo como a abdução são igualmente falíveis, embora o, julgamento perceptivo, mesmo sendo falível é indubitável.
Por outro lado o julgamento perceptivo tem algo de insistente, compulsivo que somos obrigados a reconhecer enquanto que o abdutivo nasce em momentos mais soltos, mais lúdico, e por isso mesmo são destituídos de certeza. Por isso nossas abduções devem ser submetidas à crítica, o que não acontece com os julgamentos perceptivos. Outra diferença, portanto, entre os juízos percetivos e as inferências abdutivas é que os primeiros não estão sujeitos à análise lógica.
Peirce também chama a abdução de argumento originário: uma abdução é originária quanto ao fato de ser o único tipo de argumento que começa com uma nova idéia. Portanto é à abdução que Peirce atribui o poder heurístico originário.
O processo de formação de hipótese se confunde com o processo de formação de juízos, mas a hipótese uma vez formada é a expressão lógico-verbal de um processo inferencial sob controle, isto é, os elementos já estavam na mente ("um momento de reflexão mostrará que muitos fatos estão já presumidos quando se formula a indagação lógica"), mas não na forma como foram combinados.
É importante ressaltar que Peirce formula a abdução como uma inferência que deve ser posterior a algum estado da mente, "mas defini-la como formulação inferencial é função da dedução e da indução, (...) nem a dedução, nem a indução contribuem com o menor item positivo à conclusão de uma investigação. Elas tornam o indefinido definido; a dedução explica; a indução avalia".(CP 6.475)
Para alguns comentadores a abdução ao ser relacionada com instinto, não teria forma lógica, e sendo o instinto uma questão psicológica, Peirce estaria confundindo lógica com psicologia. Para Anderson(19) que faz a defesa desta questão, a abdução é da mesma natureza do instinto (CP 5.173), é um ato de introvisão ("insight") (CP 5.181) mas mesmo assim possui uma forma lógica perfeitamente definida.(CP 5.188).
Segundo o autor acima mencionado, a abdução é paradoxalmente intuitiva e discursiva, instintiva e inferencial, podem ter um caráter de "insight" e originativo e, ainda assim ter forma lógica. Esse instinto não é um mecanismo que determina nossas adivinhações específicas, mas é uma habilidade que nos permite adivinhar corretamente.(20)
Para Santaella (1993 b:104), no processo de raciocínio, uma proposição é inferida de outra, de acordo com algum hábito mental, e se os instintos são hábitos, podem ser interpretantes num processo de tradução sígnica, então a teoria do instinto é compatível com a teoria inferencial da ação mental e, contrariamente ao individualismo da intuição ao modo de Descartes, os instintos são coletivos, sociais, hábitos vivos.
Por outro lado é necessário enfatizar a distinção feita por Peirce entre abdução e intuição (CP 5.213). Ao contrário da intuição, a abdução tem lugar em "media res", sendo influenciada por pensamentos prévios, necessitando uma determinada experiência e um problema a ser resolvido, para ter início. (CP 2.755)
O segundo momento da abdução leva em conta o fato de que poderão surgir várias hipóteses que podem explicar os fatos. Quantas hipóteses podemos levantar sobre um determinado fato? Inúmeras, mas a grande pergunta é como é que se dá o processo de formação de hipóteses ou seja que interação existe na mente humana com o objeto investigado, que faz com que o homem levante algumas hipóteses alternativas das quais a história tem mostrado que uma delas se mostra aproximadamente verdadeira?
Portanto, das inúmeras hipóteses levantadas deveremos selecionar algumas. É interessante ressaltar que da mesma forma que, no primeiro momento da abdução há necessidade de um instinto natural, no segundo momento também este instinto é necessário para se fazer a escolha certa.
A seleção das hipóteses está sujeita a algumas regras. A primeira regra diz que aquela hipótese que parecer mais simples deve ser levada em consideração em primeiro lugar.(CP 6.532) A hipótese mais simples para Peirce seria aquela mais fácil e natural, aquela que o instinto sugere que deveria ser a preferida. A simplicidade natural está ligada àquelas hipóteses que se recomendam a si mesmas, isto é, aquelas que são mais facilmente compreensíveis em termos de aptidão, razoabilidade e bom senso.(CP 7.220).
A regra da simplicidade traz algumas vantagens, entre elas a de que as hipóteses mais simples são as mais fáceis para se começar, o que permite investigar com mais eficiência, como também determinar o melhor modo testá-las e de deduzir suas conseqüências. Assim se estiverem erradas podem ser eliminadas com menos despesas do que outras. (CP 6.532)
Mas a principal justificativa deste critério reside no fato de que a ênfase não está colocada em um investigador individual e sim numa comunidade. O critério de simplicidade pode ser também inserido num contexto mais amplo do que Peirce chamou de "economia da pesquisa", no artigo "A Note on the Theory of The Economy of Research", de 1876, (CP 7.139-161).
Sob a designação geral de economia da pesquisa, Peirce organiza alguns princípios que regulam o segundo momento da abdução referente à escolha de hipóteses: economia de dinheiro, tempo, pensamento e energia. (CP 5.600).
O termo economia abrange todos os recursos humanos que são escassos, e que são investidos em diligências cognitivas. Deste conceito de economia, resultam algumas regras para a seleção de hipóteses:
Este conjunto de regras permitirá ao investigador realizar uma análise de custo benefício de todos os caminhos a serem percorridos, considerando-se que os recursos são escassos, que o número de possíveis explicações pode ser considerável, como também o custo do processo de verificação pode ser alto. O critério de economia deve sobrepujar quaisquer outros, mesmo que haja outras considerações sérias.(CP 5.602)
Para Peirce há vários tipos de hipóteses explanatórias:
Os critérios peirceanos para escolha de hipóteses são construídos em termos socio-históricos, isto é, uma hipótese deve ser preferida não somente em seus méritos intrínsecos e de verdade, mas também em termos do papel que possa representar no processo de investigação a longo prazo, como também do ponto de vista da comunidade de pesquisadores.
Segundo Peirce, são necessárias algumas considerações para se determinar a escolha de uma hipótese: deve ser capaz de explicar os fatos surpreendentes; deve ser capaz de se submeter ao teste da experiência e finalmente, sendo uma hipótese, deve se levar em conta o princípio da economia de pesquisa. Para Peirce, a teoria da economia de pesquisa parte da pressuposição que o objeto da investigação é o estabelecimento da verdade. (CP7.157)
Mas, a fim de que o processo de formular uma hipótese conduza a um resultado provável, Peirce recomenda que sejam seguidas as seguintes regras:
Portanto, a abdução pode ser entendida num contexto de eficiência, como um modelo para explicação da escolha de uma dada hipótese colaborando para tornar a investigação convergente com a verdade no menor tempo possível. A abdução seria apenas uma condição necessária para a investigação ter início.(22)
A significação de uma hipótese é a soma de todas as suas conseqüências experienciáveis, isto é, o que ela pode implicar na indução. Portanto o pragmatismo concerne as regras lógicas que governam a admissibilidade das hipóteses enquanto hipóteses.(24)
Peirce considera o pragmatismo como a lógica da abdução, então neste contexto indaga o que deve ser uma boa abdução, ou como deveria ser uma hipótese explanatória a fim de merecer a classificação de hipótese? A resposta está contida na seguinte passagem:
Por outro lado, a função de uma hipótese é explicar fatos, sob este ponto de vista o pragmatismo vai atuar como fator de escolha e decisão entre hipóteses alternativas ou concorrentes, posteriormente por um processo indutivo irá transformar "o meramente hipotético em meramente possível". Em resumo, da hipóteses à crença numa teoria, há a passagem necessária do possível para o provável.
Do ponto de vista do pragmatismo, o mais importante sobre uma hipótese se relaciona com suas conseqüências , uma hipótese só tem sentido se dela pudermos derivar alguns efeitos, se a hipótese for verdadeira ela não será derrubada pela dúvida nem ao ser testada será surpreendida por experiências conflitantes.
Peirce também usa o termo retrodução como sinônimo de abdução. Segundo ele retrodução, que para Aristóteles era "apagoge" foi mal interpretada em virtude de uma deturpação em seu texto e é geralmente traduzida nesta forma errônea. (CP1.65)
Retrodução é definida como:
ou esta outra definição:
Rescher(26) distingue abdução de retrodução, para ele o trabalho hipotético-indutivo da investigação é dividido em duas fases:
O que a abdução tem de poderoso, "o quase raciocínio" responsável por todas as descobertas, ela tem também de incerto e limitado, visto que não possui qualquer força probativa.(CP 8.210) A conclusão de uma hipótese é problemática ou conjectural. (CP 5.192)
Peirce enfatiza esta característica da abdução ao usar expressões tais como: adivinhação ("fair guess"), um "insight" extremamente falível , "não suficientemente forte para que esteja com mais freqüência certo do que errado".(27) Ou então ele afirma categoricamente que não há segurança no que diz respeito à abdução/retrodução:
Por outro lado, segundo Santaella (1993 b:95), a abdução sendo o tipo mais frágil de argumento lógico, serve com perfeição às necessidades da arte, pois esta não tem nenhum compromisso com a verdade da ciência. No seu núcleo central ela se refere ao ato criativo de invenção de uma hipótese explicativa, sendo conseqüentemente, "o tipo de raciocínio através do qual a criatividade se manifesta na ciência e na arte, do que decorre que é aí, justamente nesse ponto de encontro, onde os caminhos de ambas se cruzam."
Analisando a abdução do ponto de vista da criatividade, Anderson em "Scientific Creativity"(29) mostra que existem diferentes níveis de criatividade na abdução. Embora Peirce tivesse interesse por toda a gama de abduções, ele tinha especial interesse pelo aspecto abdutivo "como único tipo de raciocínio que fornece novas idéias", particularmente ligado à criatividade científica, ou seja, o que levaria cientistas como Copernico, Kepler, Newton a serem particularmente criativos? Esses são os exemplos de abdução mais criativa, constituindo teorias evolucionárias, que mudaram de forma radical o padrão de explicação da realidade.
Mas é possível admitir que nem todas as abduções são originais, ou seja uma pessoa pode ter uma abdução que já ocorreu para outra, embora a abdução seja criativa "não quer dizer que já não tenha ocorrido antes." Há o caso também de abduções que ocorrem a duas ou mais pessoas mais ou menos no mesmo espaço de tempo. (CP 2.714)
Existe também uma forma de abdução que Peirce chama de indução de caracteres que é criativa no sentido de ser sintética e inteligente, mas não gera uma nova idéia. (CP 2.626, 2.629, 2.632)
Peirce afirma numa passagem que a abdução é o tipo mais importante de raciocínio. (NEM 3.206) Pode-se dizer que a importância(31) da abdução não se restringe ao nascimento das hipóteses de uma investigação, mas suscita outras questões tais como a teoria da percepção (CP 5.181), tem um papel importante na memória (CP 2.265), é essencial para a história (CP 6.606 e 2.714), além de ser a essência do pragmatismo, que Peirce vê como a lógica da abdução (CP 5.195-205)
NOTAS
(1) L.SANTAELLA (1992). "Tempo de Colheita" em A Assinatura das Coisas, Rio de Janeiro: Imago - D. Anderson, (1987) "Scientific Creativity" em Creativity and The Philosophy of C.S.Peirce, p.12/53.
(2) B. Serson, (1992) La théorie sémiotique de la cognition chez C.S.Peirce, tese de doutoramento, p. 64-91.
(3) L. Santaella (1992) op.cit. p. 87.
(4) D.Anderson (1987), op.cit. p.15.
(5) L. Santaella (1992), op.cit. p. 93.
(6) L. Santaella (1992), op. cit. p.97 cita como exemplo o texto de Umberto Eco "Chifres, Cascos, Canela, Algumas Hipóteses Acerca de Três Tipos de Abdução", em que o autor confunde a abdução com outros tipos de argumentos.
(7) Para Sebeok (1991:47) "testar uma hipótese, bem como a identidade de uma pessoa através de um conjunto de pistas a partir da aparência física do indivíduo, dos padrões de fala e coisas semelhantes, sempre envolve uma certa dose de adivinhação, razão pela qual Peirce chamou a isso 'indução abdutória' (ou, em outras ocasiões, modelação especulativa)".
(8) idem p. 221.
(9)Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "By a hypothesis, I mean, not merely a supposition about an observed object, as when I suppose that a man is a Catholic priest because that would explain his dress, expression of countenance, and bearing, but also any other supposed truth from which would result such facts as have been observed...(...) The first starting of a hypothesis and the entertaining of it, whether as a simple interrogation or with any degree of confidence, is an inferential step which I propose to call abduction. This will include a preference for any one hypothesis over others which would equally explain the facts, so long as this preference is not based upon any previous knowledge bearing upon the truth of the hypotheses, nor on any testing of any of the hypotheses, after having admitted them on probation. I call all such inference by the peculiar name, abduction, because its legitimacy depends upon altogether different principles from those of other kinds of inference." (CP 6.526)
(10) ibidem p. 221.
(11) C. F. Delaney, op.cit. p. 15.
(12) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "It is certain that the only hope of retroductive reasoning ever reaching the truth is that there may be some natural tendency toward an agreement between the ideas which suggest themselves to the human mind and those which are concerned in the laws of nature." (CP 1.81)
(13) C. Eisele (1985) op.cit. p. 899.
(14) idem p.20
(15) "Instinto é uma espécie de fio permeando as inferências da vida, ligando analogicamente o homem a todas as outras formas vitais, inclusive vegetais. (...) Nos seres humanos, não apenas algumas ações primitivas, reflexos são insitintivos, mas também o são alguns tipos de crenças (...) Além disso, todos os instintos tem caráter de hábitos, sendo por implicação interpretantes num processo sígnico" (Santaella, 1993 b:104)
(16) I. Ibri, (1996) "A abdução e o evolucionismo", palestra ministrada na Puc.
(17) T. Sebeok, (1991) op.cit. p. 22.
(18) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "When one contemplates a surprising or otherwise perplexing state of things (often so perplexing that he cannot definitely state what the perplexing character is) he may formulate it into a judgment or many apparently connected judgments; he will often finally strike out a hypothesis, or problematical judgment, as a mere possibility, from which he either fully perceives or more or less suspects that the perplexing phenomenon would be a necessary or quite probable consequence." (CP 8 229)
(19) D. Anderson, (1986) "The Evolution of Peirce's Concept of Abduction", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol XXII,n.2 p.145-64 e R. Roth, (1988) "Anderson on Peirce's Concept of Abduction: Further Reflections", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol. XXIV, n.1 p.131/139, P. Forster, (1989) "Peirce on the Progress and Autorithy of Science", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol. XXV, n.4, p.421-452.
(20) CP 7.220, 6.530, 5.591, 5.604 e 6.476.
(21) CP 6.488, CP 5.547, CP 6.259.
(22) N. Rescher, (1978) Peirce's Philosophy of Science-Critical Studies in His Theory or Induction and Scientific Method, p. 48.
(23) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "An Abduction is a method of forming a general prediction without any positive assurance that it will succeed either in the special case or usually, its justification being that it is the only possible hope of regulating our future conduct rationally." (CP 2.270).
(24) B. Serson, (1996) op. cit. p. 24.
(25) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "The function of retroduction is not unlike those fortuitous variations in reproduction which played so important a r"le in Darwin's original theory. In point of fact, according to him every step in the long history of the development of the moner into the man was first taken in that arbitrary and lawless mode. Whatever truth or error there may be in that, it is quite indubitable, as it appears to me, that every step in the development of primitive notions into modern science was in the first instance mere guess-work, or at least mere conjecture. But the stimulus to guessing, the hint of the conjecture, was derived from experience. The order of the march of suggestion in retroduction is from experience to hypothesis". (CP 2.755)
(26) N. Rescher, (1978) op.cit., p.8 e 41.
(27) CP 2.623, CP 5.181, CP 5.173.
(28) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "Retroduction does not afford security. The hypothesis must be tested. This testing, to be logically valid, must honestly start, not as Retroduction starts, with scrutiny of the phenomena, but with examination of the hypothesis, and a muster of all sorts of conditional experiential consequences which would follow from its truth" (CP 6.470)
(29) D. Anderson (1987), op. cit. p. 12-53.
(30) Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "Hypothesis has been called an induction of characters. A number of characters belonging to a certain class are found in a certain object; whence it is inferred that all the characters of that class belong to the object in question" (CP 2.632)
(31) L. Santaella (1993) Metodologia Semiótica: Fundamentos, tese de livre docência inédita, São Paulo ECA/USP p.113.