Cultura Tecnológica & O Corpo Biocibernético Interlab

Por: Lucia Santaella


 

O título deste trabalho, embora à primeira vista estranho, não é tão original quanto parece. Felizmente, pois uma completa originalidade depõe contra o pensamento, cuja principal característica é a de ser geral, coletivo, transcendendo as fronteiras de um indivíduo particular. Esse princípio se aplica também e principalmente a pensamentos em estado nascente. O nascimento de novas idéias é um processo que brota no território impreciso das conjecturas, sem limites definidos. São relâmpagos de intuições que emergem de modo vago e ainda informe em várias cabeças ao mesmo tempo. Num dado momento, as conjecturas começam a se juntar em definições mais precisas, permitindo uma melhor visibilidade e legibilidade da idéia. A partir disso, a idéia se dissemina incorporando-se com maior ou menor lentidão no domínio público. Uma trajetória desse tipo parece estar sendo seguida pelo pensamento sobre o corpo neste final de século.

A consciência de um novo estatuto do corpo humano, que se ramifica crescentemente em variados sistemas de extensões tecnológicas, foi gradativamente emergindo até adquirir uma forma de expressão em atributos similares a este que escolhi empregar: "biocibernético". Esclareço que, ao usar o termo "cibernético", estou usando-o no sentido de uma cibernética de segunda ordem, à luz de Von Foerster (1992), Maturana e Varela (1983), rumo a uma ciber-semiótica (Brier 1996). De acordo com esta cibernética, as formas de conhecimento surgem da praxis da vida. A informação e o significado, nos seus sentidos mais latos, só emergem dentro dos sistemas auto-organizativos ou sistemas autopoiéticos, para usarmos a expressão de Maturana e Varela (1983), que apresentam uma relação prática e histórica dentro do domínio do vivo (ver Brier 1996).

 

Uma humanidade híbrida, pós-biológica

No imaginário coletivo popularizado pelo cinema, a visão de uma criatura híbrida, cyborg, mistura de gente e dispositivos maquínicos já começou a aparecer há algum tempo. Também no mundo intelectual e artístico, a reflexão e as produções estéticas sobre a emergência de seres fronteiriços, cyber-orgânicos, têm se intensificado na última década.

Sem nenhuma pretensão de exaustividade, mas apenas a título indicativo, em 1988, Hans Moravec, por exemplo, no seu livro Mind Children, ousadamente falava de um mundo pós-biológico de liberação do pensamento humano da escravidão a um corpo mortal. Em 1989, Jean-Claude Beaune, no seu estudo sobre os autômatos, chamou de autômato cibernético e informático uma nova espécie de criatura viva dotada de uma inteligência semi-autônoma ou capacidade de adaptação. Desde então, a conexão do corpo com as máquinas, interfaces do orgânico e do tecnológico, em níveis de complexidade cada vez maiores, tem recebido denominações variadas, todas elas convergindo para uma idéia comum. Francesco Antonucci (1994) fala de um corpo em prótese, corpo bio-maquínico, Olivier Dyens (1995) discorre sobre a ciber-ecologia e percepção ciber-orgânica ou modelização líquida da informação, enfatizando que o ser humano está se tornando meta-orgânico, quer dizer, uma mistura do orgânico com o eletrônico, informático e telemático, enfim, um cyborg cognitivo. David Thomas (1995) anuncia o futuro de uma outra espécie de corpo e Roy Ascott (1995) diz que estamos a caminho de nos tornarmos biônicos.

Em 1990, no segundo simpósio internacional de Arte Eletrônica, realizado em Groningen, o artista performático australiano, Stelarc, no seu "Protética, robótica e existência remota", desenvolvendo sua tese do corpo obsoleto (ver Stelarc 1994, 1995, 1997), falava em estratégias pós-evolucionistas para reprojetar o corpo humano biologicamente mal equipado para enfrentar seu novo ambiente extraterrestre. Em 1993, num artigo sob o título de "The desire to be wired", Gareth Branwyn mencionava a emergência de uma tecno-mitologia que consiste em "morfar", "formatar" o corpo humano para que ele responda às exigências e às possibilidades de uma era pós-humana. É essa mesma expressão, pós-humana ou pós-biológica, que Roy Ascott também utiliza para se referir à consciência emergente que se expande para além do organismo humano.

Sem ter ainda notícia de todas essas referências e num contexto distinto, também comecei a utilizar, há mais ou menos quatro anos, a expressão "pós-humana", para me referir às remarcáveis conexões que podemos estabelecer entre duas grandes descobertas, a primeira delas tendo se dado no universo humano, a outra, no universo não-humano. Explicando: no mundo humano, trata-se da descoberta freudiana, no começo deste século, de que há algo de inumano, de inorgânico --- a pulsão de morte --- no seio mesmo do humano. No mundo não-humano, sob o nome de estruturas dissipativas, trata-se da descoberta de Prigogine de que a irreversibilidade, que é própria do orgânico, também pode aparecer no seio do inorgânico. A este cruzamento, que se faz notar entre o aparecimento do inorgânico no interior do orgânico e a existência da irreversibilidade própria à vida no universo inorgânico, tenho chamado de advento do pós-humano (ver Santaella 1996a).

Vale notar, entretanto, que, desde 1995, a expressão pós-humano vem se tornando voz corrente em muitas publicações como, por exemplo, Os corpos pós-humanos, de Halberstam e Livingston (1995) e A condição pós-humana, de Robert Pepperell (1995).

Tudo isso só parece confirmar o prognóstico de Pierre Boulez de que as forças vivas da criação [e do pensamento] caminham maciçamente numa mesma direção. Embora só sejam visíveis no imaginário popular de uma cinematografia do tipo RoboCop e Terminator e na sensibilidade estética nem sempre visível, mas sempre complexa dos artistas de ponta, a remodelagem do corpo e a reconfiguração da consciência humana estão se tornando cada vez mais incontestáveis, neste final de século.

 

Semiosfera: o reino dos signos e da cultura

Em sintonia com aqueles que têm tomado a dianteira na exploração de uma nova economia cerebral e sensorial que está brotando das hibridizações entre o orgânico e o sintético, venho perseguindo, ainda de modo incerto e no lusco-fusco de um pensamento em formação, a hipótese de que esse destino bio-tecnológico do ser humano, hoje manifesto nas mesclas do carbono com o silício, já estava inscrito no programa genético da espécie, no momento em que se deu, na biosfera, esse acontecimento único, a emergência da ordem simbólica humana, abrindo caminho para o advento de um novo reino, noológico, semiosférico, reino dos signos e da cultura, predestinado a crescer e se multiplicar.

Na abertura de seu texto "A casa dos espelhos", inserido no volume A arte no século XXI, organizado por Diana Domingues (1997), Norman T. White diz que, para ele, "a arte torna-se viva somente quando ela oferece uma estrutura teórica para questionamentos. A ciência oferece essa estrutura teórica também, mas, para mim", continua White, "a `boa ciência' é por demais restritiva. Eu preferiria fazer perguntas que se endereçassem simultaneamente a múltiplos mundos - dos organismos vivos até a cultura, a ferrugem e o caos. Somente a arte me dá essa generalidade".

Refletindo sobre esse testemunho de White, ocorreu-me que a arte, não a arte que se conforta no estabelecido, mas a arte que cria problemas, tem sido também para mim o território privilegiado para o exercício da ousadia do pensamento que não teme abraçar sínteses incomensuráveis, fazendo face aos enigmas e desafios do emergencial, território privilegiado, enfim, para deixar livre a imaginação que ausculta o presente, nele pressentindo o futuro. É na ambiência conjectural de uma reflexão pouco servil à severidade das exigências superegóicas que proponho as generalizações que se seguem.

Cada vez mais crescentemente a semiótica, especialmente nas suas vertentes da bio e ciber-semiótica, tem nos fornecido meios de questionamento da dicotomia entre natureza e cultura. À luz da semiótica, as linhas divisórias entre o mundo natural e o cultural, se esfumam, perdem toda nitidez. Se tudo aquilo que chamamos de vida só é vida porque está projetada como código, se sistemas de codificação estão na base daquilo que chamamos de cultura, o que sobra de natureza, sem cultura? Em síntese, a noção separatista de cultura como um privilégio exclusivamente humano não é senão fruto de uma arrogância antropocêntrica que atingiu seu clímax no século XIX, estando hoje em vias de extinção.

No limiar do século XXI, quando as fronteiras entre ambiente externo (mídias, tecnologias) e ambiente interno (percepção, cognição, modelização) caminham para uma radical abolição, um olhar semiótico pode funcionar como uma chave para a compreensão do inextricável imbricamento da tecnologia e cultura (semiosfera) na natureza (bio e ecoesfera), imbricamento a que estamos assistindo e de que somos participantes.

 

Cultura é mediação

Sob um ponto de vista semiótico, cultura é mediação. Onde houver vida, há cultura, pois a vida só se explica porque, no seu cerne, reside a inteligência, outro nome para mediação. Desse modo, as diferenças entre natureza e cultura não se resolvem na simples e fácil oposição, mas nas gradações que vão das formas mais rudimentares de vida e cultura até as formas mais complexas, estas manifestas na capacidade simbólica da espécie humana. É em razão dessa complexidade que o ser humano e todas as formas e níveis de cultura por ele produzidos se constituem em pontos privilegiados a partir dos quais se pode mirar a vida e o universo.

Um dos princípios definidores da complexidade está na sua impossibilidade de parar de crescer. No cerne do humano, mais explicitamente, no neo-córtex, morada do simbólico, este que é a mais requintada forma de mediação, reside, por enquanto, a manifestação otimizada da complexidade, fonte do crescimento contínuo. Ora, por limitações físico-biológicas, o crescimento do cérebro não podia se dar dentro da caixa craniana. Já indagava C. S. Peirce que, se o universo está em expansão, onde mais ele poderia crescer senão na cabeça dos homens? Certamente, a palavra cabeça não deve aí ser entendida no sentido de mente cartesiana, habitada por um ego individual, mas no sentido de pensamento coletivo, extrojetado, posto para fora na forma de signos. Se o neo-cortex, não pode parar de crescer, não podendo crescer dentro da caixa craniana, a capacidade simbólica humana sempre esteve fadada a crescer fora do corpo humano, externalizada sub specie sígnica. Estavam aí já lançados os dados da extrassomatização do cérebro e dos sentidos humanos, extrassomatização que se corporifica na multiplicidade e multiplicação semiosférica (a esfera dos signos e da cultura), dominando gradativa e crescentemente a biosfera.

Um olhar retrospectivo, capaz de estender-se de um passado longínquo até os nossos dias, nos fornece dados para as afirmações acima. Há uma longa história reveladora, mas infelizmente negligenciada, da semiose humana evidenciando que nossa espécie, desde sempre e continuamente, tem povoado a biosfera com rebentos extrassomáticos, os signos, imprimindo sobre a natureza as marcas do crescimento do seu cérebro.

 

O crescimento do cérebro

A emergência hiper-mediadora do neo-cortex coincidiu com a posição bípede que liberou as mãos para a sutileza dos gestos. Mas sem um meio de transmissão, um meio de contato com o exterior, o neo-cortex teria provavelmente atrofiado ou sequer se desenvolvido. Foi no próprio corpo humano que a sagacidade evolutiva instalou o aparelho fonador, apropriando-se para isso de vários órgãos funcionais, da respiração, sucção e deglutição e acrescentando-lhes a função articulatória da fala. O neo-cortex e a fala são assim instauradores da socialidade, responsáveis pela emergência do pensamento que é por sua própria natureza externalizável, social, compartilhado.

A sutileza das mãos, a gestualidade tão específica do humano, também muito cedo encontrou suas formas de extrojeção na pintura dos corpos e nos primeiros artefatos voltados para a sobrevivência física, esta logo seguida da produção de objetos, vestimentas, arquitetura, marcas que o intelecto humano foi crescentemente imprimindo sobre a natureza. Através do gesto e da fala, nas suas crias sígnicas, tais como a escrita, desenho, pintura, o cérebro foi se estendendo para fora do corpo, amplificando sua capacidade sensória e intelectiva.

Diferentemente dos outros animais, entretanto, a sobrevivência humana não tem só um lado. O neo-cortex cobra o seu preço. Mais exigente do que a sobrevivência física é a sobrevivência psíquica humana. É dessa exigência inexaurível que começaram a nascer os signos, puros signos, cuja funcionalidade é muito mais enigmática do que a dos signos utilitários, estes que costumamos chamar de utensílios e objetos. As primeiras inscrições nas grutas, os rituais, deuses e mitos, o canto, a música, a dança, os jogos, todos eles dispendiosos e inúteis para a sobrevivência física, são condição e cifras do psiquismo humano.

A relação do corpo úmido com a ecoesfera, tão enfatizada nesta era seca da tecnologia do silício, é inalienavelmente uma relação mediada pelos signos e pela cultura. Essa mediação foi, desde sempre, uma condição imposta pelo cérebro humano. Embora não cessemos de sonhar que somos corpos, tão-somente corpos, e que as coisas são coisas, só coisas, desde sempre estivemos fadados a habitar a biosfera nos interstícios dos signos e da sua resultante direta, a cultura.

Tendo começado com os primeiros utensílios, as primeiras picadas nas matas e com as inscrições nas grutas, a aventura sem data e cujo destino desconhecemos da extrassomatização do cérebro foi se sofisticando cada vez mais em formas de escritura, códigos imagéticos e notações que implicaram na criação de suportes e materiais para a produção da imagem e do som, tais como a invenção de Gutenberg, as gravuras, a tinta a óleo, os instrumentos musicais. Foi a partir da revolução industrial com suas máquinas capazes de produzir e reproduzir linguagens, entretanto, que o crescimento do cérebro, fora da caixa craniana, iria encontrar sua exponenciação, tal como se manifesta nas diferentes formas de registro e eternização dos signos visuais e auditivos: foto, cinema, fonógrafo, gramofone. Tal exponenciação iria se intensificar ainda mais nas máquinas replicadoras das funções sensório-motoras próprias da revolução eletrônica, rádio, TV, vídeo, eletroacústica e nas máquinas cerebrais, tecnologias da inteligência (Pierre Lévy 1993), da revolução teleinformática.

É curioso observar que cada uma das extrojeções do intelecto e dos sentidos humanos via de regra correspondeu à extrassomatização de uma certa habilidade da mente. Qualquer extrassomatização sempre significou uma perda a nível do indivíduo, perda individual que é imediatamente compensada pelo ganho a nível da espécie. Assim foi, por exemplo, com a invenção da escrita, que significou uma perda da memória individual, mas, ao mesmo tempo, funcionou como uma extensão da memória da espécie. Sem a escrita, a memória correria sempre o risco de se perder com a morte do indivíduo. Como bem prognosticaram os antigos, a escrita, de fato, nos leva à negligência da memória individual, mas é capaz de guardar indefinidamente a memória da espécie.

 

As máquinas sensórias e as máquinas cerebrais

Com o advento das máquinas visuais e sonoras, fotográfica, cinematográfica, gravador, televisão, que, num outro contexto, chamei de máquinas sensórias (Santaella 1996b), foram os sentidos humanos, a inteligência sensória da espécie, especialmente a do olho e do ouvido, que se estendeu, amplificando-se.

As máquinas sensórias povoaram o mundo de imagens e sons, saturando-o de réplicas do visível e audível. É curioso também observar que as máquinas inteligentes da revolução teleinformática, capazes de transformar em impulsos eletrônicos todas as escritas, sons, vozes e vídeos são, antes de tudo, máquinas processadoras, realizando para o ser humano tarefas de armazenamento, recuperação e transformação de dados que cérebros individuais não têm mais o poder de realizar. O crescimento do cérebro da espécie nos signos que esse crescimento extrojetou necessita hoje de hiper-cérebros processadores, esses mesmos que são encontrados nas centrais de dados informatizados, à disposição nas redes.

Enfim, os meios, instrumentos e máquinas de produção de linguagens, como extensões de nossas capacidades sensórias e cerebrais, e os signos por eles produzidos, como amplificadores e multiplicadores dessas capacidades, foram dando ao nosso corpo dimensões correspondentes aos níveis crescentes de extrassomatização do cérebro. De fato, tão crescentes têm sido os níveis dessa extrassomatização a ponto de podermos hoje afirmar que o corpo humano já não apresenta mais a forma nem a dimensão que aparece no espelho do nosso quarto. À arquitetura líquida, movente, plástica e cibernética do nosso cérebro corresponde atualmente uma arquitetura corporal também redimensionada.

 

O redimensionamento do corpo humano

Aquilo que vem sendo denominado de era pós-biológica não é um fenômeno isolado e desenraizado. Ao contrário, é fruto de um processo evolutivo cujo início remonta ao advento do neo-cortex e de sua matéria prima precípua: a linguagem, a capacidade simbólica, os signos. Em concordância com essa idéia, no seu Evolution of the modern mind, Merlin Donald (1991) considera as extensões da capacidade simbólica ou memória externalizada como ele as chama, isto é, as formas de escrita e de imagens, seguidas pela hiperprodução técnica de imagens e sons e, então, pelas tecnologias teleinformáticas, como a mais recente etapa nos ciclos evolutivos da espécie humana.

Embora só agora esteja se tornando evidente, o novo estatuto do corpo, na sua fusão com as tecnologias, nas suas interfaces do biológico e o maquínico, na sua constituição híbrida de organismo cibernético, orgânico e protético, é fruto de um longo e gradativo processo que já teve início quando a espécie humana ascendeu à sua posição bípede, de um ser que gesticula e fala. As primeiras tecnologias sígnicas, da comunicação e da cultura já foram a fala e o gesto. Não obstante toda a sua aparência de naturalidade, a fala já é um tipo de sistema técnico, quase tão artificial quanto um computador. Natural é respirar, sugar, chupar, comer. Ora, a fala, um artifício, roubou parte do funcionamento dos órgãos naturais da respiração e deglutição, emprestando-lhes novas e imprevistas finalidades. Deu-se aí por iniciada a comunhão entre os sistemas técnicos e a biologia do corpo, comunhão crescente que hoje transparece no cibercorpo. Embora seja uma comunhão paradoxal, que subsiste no equilíbrio precário entre o natural e o artificial, desde a fala e o gesto, nunca houve uma cisão entre o biológico e o técnico. Ao contrário, através das técnicas que possibilitaram o crescimento do cérebro fora do corpo humano, a ecoesfera foi se tornando cada vez mais inteligente, sígnica, cultural, semiosférica, o que, sem dúvida, tem resultado num mal-estar também crescente, como já foi brilhantemente denunciado por Freud (ver Das Unbehagen in der Kultur).

Por que a fala e o gesto são sentidos como naturais enquanto as outras técnicas são tidas como artificiais, estranhas, irreconhecíveis? Pelo simples fato de que, não obstante sejam também técnicas, fala e gesto ainda estão inseridos no próprio corpo, são ainda partes integrantes do corpo. O estranhamento e as resistências tiveram início quando as técnicas começaram a se lançar para fora do corpo como extrojeções de habilidades do cérebro, a memória, por exemplo, na escrita, ou extrojeções do gesto, no desenho, como amplificação do sentido da visão, ou nos instrumentos musicais como amplificação do sentido da audição. Quanto mais o universo sensorial foi se estendendo e se amplificando em tecnologias de produção de signos, mais o cérebro extrassomatizado foi objetivando-se em cultura. Quanto mais ligadas ou perto do corpo, menos as técnicas são sentidas como estranhas a ele. Quanto mais extrojetadas do corpo, quanto mais dilatadas as capacidades sensoriais e cognitivas do cérebro, mais as tecnologias são percebidas como estranhas, estrangeiras, alienígenas, gerando, via de regra, resistências e temores que hoje culminam nas propaladas lamúrias de que o computador, por exemplo, desumaniza o homem. Qual é o parâmetro para a imagem de humanidade que está por trás dessa queixa? Provavelmente uma humanidade pré-adâmica, desprovida da fala e do gesto, movendo-se sobre quatro patas.

Sejam elas quais forem, aparelho fonador, instrumentos de desenho, gravura, aparelhos de foto, gravações sonoras, cinema, vídeo, holografia, computadores, redes telemáticas, são todas elas próteses, sempre complexas, algumas mais, outras menos, que não só estendem e amplificam os cinco sentidos de nossos corpos, mas também, através dessas extensões, produzem, reproduzem e processam signos que aumentam a memória e a cognição de nossos cérebros. Porque produzem signos, essas próteses são simbólicas e não só aderem ao real do nosso corpo de modo mais ou menos visível, como também se incorporam ao nosso imaginário tanto a nível individual quanto da espécie.

 

O corpo e suas próteses sensório-cognitivas

Para um balanço da extensão sensorial e cognitiva das próteses tecnológicas responsáveis pelo redimensionamento do nosso corpo, vale mapear o estado atual da arte nos seus aspectos mais importantes.

Tendo povoado a superfície terrestre com crias cada vez mais complexas do seu intelecto, foi na direção do céu que as extensões do corpo e mente humanos começaram também a colocar sua mira. Kerckhove (1994) afirmou que a pele humana tem hoje uma extensão global, uma pele satelítica capaz de perceber toda a superfície do globo. Tal extensão é fruto da poli e hiperlocalização do nosso corpo em função do crescimento extrassomático do cérebro.

De fato, já faz algum tempo que os signos começaram a migrar para o céu, nele alocando-se em famílias e redes que circulam através dos satélites. Como já expressei em outro trabalho (Santaella 1996c), órgãos quase autônomos e sofisticados de visão cercam hoje a Terra. Nossos olhos adquirem assim o tamanho do globo, na medida em que este pode ser visualizado nas imagens de sensoriamento remoto, imagens de satélites. Entretanto, as dimensões dos nossos sentidos cognitivos não param no limite do globo terrestre. Avançam para além dele, nas antenas de rádio astronomia que aproximam nossos ouvidos de ruídos celestes remotos, enquanto o computador permite representar em imagens acontecimentos interestelares e trajetórias astrais, registrados e retransmitidos por satélites, dando acesso a todo um universo do qual, há não muito tempo, só podíamos ter uma representação matemática e especulativa.

Não menos impressionantes do que esses sentidos macroscópicos, vias de acesso ao espaço sideral, são os sentidos microscópicos, vias de acesso ao interior dos nossos corpos. Por ressonância magnética, leitura ótica (scanner), laparoscopia, tomografia computadorizada, ecografia, angiografia, colorizações artificiais, os mais íntimos recessos do corpo são esquadrinhados, virados pelo avesso. Esse, no entanto, é apenas um dos modos pelos quais o corpo humano está sendo perscrutado. Esse é o modo mais físico, realizado por tecnologias exploratórias, quase táteis.

Há, no entanto, mais dois outros modos de investigação do corpo. Um deles é o que se desenvolve no projeto genoma que tem buscado penetrar na matéria básica do corpo, uma matéria geneticamente codificada. O outro modo se dá através da simulação computacional, naquilo que vem sendo chamado de vida artificial. Qualquer coisa pode ser simulada no computador, não só o cérebro mas também o corpo, o sistema hormonal, a evolução, os rumores e as redundâncias do fenômeno biológico. Pode-se simular até informação tátil, térmica, olfativa, sinestésica, sensório-motora. Pode-se, enfim, simular a própria vida, originando-se dessa simulação um ser vivente seco, réplica em silício dos seres vivos úmidos, de carbono. Até que ponto essas réplicas ascéticas podem ser chamadas de vida está sendo objeto de acalorados debates (ver, por exemplo, Emmeche 1991).

O que resulta desses três modos de investigação é a decodificação molecular, genética do funcionamento do corpo. Como resultado dessa decodificação, surgem, de um lado, as clonagens, de outro, as próteses não só para a substituição de partes e órgãos do corpo, mas para complementar e intensificar suas funções até o ponto de já estarem começando a surgir cogitações sobre próteses que seriam implantadas no cérebro para intensificar e ampliar suas capacidades.

A par da vida artificial, através das simulações computacionais, emerge também a realidade virtual que enriquece a simulação dando-lhe dimensões adicionais: a interatividade e a penetração, a imersão nos universos simulados. Reproduzindo as condições primárias das operações sensório-motoras, a realidade virtual otimiza o corpo bio-maquínico na sua globalidade psicofísica. Já nas telas da multi e hipermídia, a combinatória pluri-sensorial, que naturalmente nosso cérebro pratica para constituir suas imagens, tornou-se possível fora do próprio cérebro. Isso ainda mais se acentua na realidade virtual na medida em que nela a dimensão cognitiva está fundada na sensomotricidade e poli-sensorialidade, no envolvimento extensivo do corpo na sua globalidade psico-sensorial, sinestésica. Por isso mesmo, a realidade virtual favorece os deslocamentos de fronteiras entre o real e o virtual, entre o racional e o sensível, o individual e o coletivo. O aspecto mais importante, no entanto, está no fato de que, como extensão do nosso sistema nervoso psico-sensório-motor, a realidade virtual está se responsabilizando pelo reequilíbrio dos sentidos humanos.

De fato, a realidade virtual, aliada às simulações computacionais, à tele-robótica e telepresença parece estar prometendo o balanceamento, o reequilíbrio do papel dos demais sentidos, tato, olfato e até mesmo paladar, frente a ainda ostensiva hegemonia dos olhos e ouvidos.

Frente a tudo isso, uma das tarefas mais desafiadoras que hoje se nos apresenta é a de descobrir qual a forma atual do nosso corpo, uma forma que é ainda invisível aos nossos olhos, mas que já está sendo insinuada pela sensibilidade dos artistas. De fato, quem está prenunciando as novas dimensões do corpo e cérebro humanos são os artistas, artistas inquietos, esses que têm o poder de tornar enigmaticamente visível o invisível.

 

Os artistas e seus prenúncios

O corpo humano sempre foi objeto do olhar e da criação artística. Neste século, mais acentuadamente neste final de século, quando nossos corpos atingem um nível de plasticidade extrema e de dissolução de suas fronteiras físicas, sensíveis, cognitivas, não é de se estranhar que o corpo tenha se tornado o grande tema, foco, representação, objeto performático e objeto simulado das artes.

As simbioses, atrofias e hipertrofias do corpo maquínico e do corpo em transformação já faziam parte do imaginário plástico das vanguardas modernistas no início do século XX. Sem nenhuma intenção de exaustividade, mas apenas para sinalizar algumas passagens, vale notar que esses mesmos caracteres, em intensidade acentuada e em traços pouco óbvios, trouxeram a fama a Francis Bacon e Lucien Freud, só para citar dois exemplos. Nos happenings dos anos 60, o corpo vivo, em atuação, era, por si e em si mesmo, arte. Nas instalações interrogativas de Beuys, os vestígios de um corpo ausente, denunciavam sua inexplicável presença. Enfim, as aparições do corpo na arte do século XX são inesgotáveis. Basta, portanto, apontar para o fato de que, há pelo menos duas décadas, o corpo se tornou, decididamente, o grande ponto de convergência das artes, desde as artes artesanais, performáticas, instalações, até as artes que se utilizam das tecnologias de ponta para explorar a desfronteirização do corpo físico, sensorial, psíquico, cognitivo.

Atualmente, por exemplo, artistas se voltam para a criação de registros sui-generis, por vezes insólitos, da fisicalidade de seus corpos. É tal a compulsividade com que manifestações desse tipo se repetem que nos leva a pensar na necessidade manifesta pelo artista de lançar esses registros para o futuro, como moldes, memória indelével de um corpo cuja compleição, dimensão, contorno físico estão em vias de mutação. Exemplar perturbadoramente nítido dessa tendência é a obra de Del Pilar Sallum, especialmente na série Ataduras, em que 'a artista molda fios metálicos, compulsivamente ao redor de suas mãos e dedos, que se tornam moldes. Desenformados, os moldes se tornam passado, e a forma escultórica resultante conta o vazio de um corpo e um tempo que já passou' (Canton 1997: 47).

No extremo oposto, atravessando as inumeráveis camadas das mediações tecnológicas, aparecem as obras que apalpam as fronteiras das diferentes facetas dos corpos híbridos de uma humanidade maquínica. Exemplos disso aparecem na arte espacial ou de simulação espacial (ver, por exemplo, a obra de Jean-Marc Philippe e, no Brasil, a de Wagner Garcia), assim como nas artes das redes telecomunicacionais, arte nômade, policontextual, em que mentes fluidas transitam por espaços líquidos (ver Kac 1995). Outros exemplos aparecem na nova estética da robótica, telepresença em que mundos virtuais são partilhados através da presença virtual de corpos em trânsito entre sistemas telemáticos diferentes (ver, por exemplo, Kac 1992, 1993, 1997). Outros exemplos ainda, podem ser encontrados nas formas de arte baseadas na transformação genética ou também nas instalações multimidiáticas que põem em cena imagens constrangedoras dos recessos mais íntimos dos órgãos, carne, sangue, células do corpo humano (ver sobre isso Sogabe 1996 e especialmente a obra recente de Diana Domingues, no Brasil).

 

Anotações finais

Em síntese, a questão a que dei o nome de corpo-biocibernético é complexa e inesgotável, pois se trata de uma questão candente, que apenas se anuncia. O que pretendi aqui foi simplesmente esboçar uma hipótese a ser perseguida no futuro. Termino, assim, com um brevíssimo ensaio de interpretação e um sinal de alerta.

O ensaio de interpretação venho desenvolvendo há algum tempo. Tenho para mim que o inexorável crescimento dos signos que teve início nos rituais, nos desenhos das grutas e que hoje se avoluma nos bancos de dados e nas redes de hipermídia, além de obedecerem ao desígnio de nossa evolução biológica, obedecem também a uma função psíquica visceral: a de compensar a espécie pela dor da mortalidade. Semeamos e cultivamos os signos, somos pacientes de seu crescimento desmedido sobre o qual, em tempo algum, pudemos exercer qualquer forma de controle, porque os signos são mais eternos do que os mármores e os metais (Shakespeare via Borges). Os signos são nossa única vingança. Uma vingança meiga e imperceptível porque inelutavelmente mediada (ver Santaella 1996d).

O sinal de alerta comecei a desenvolver há uns três anos. Ele serve como um antídoto contra qualquer euforia precipitada em relação às tecnologias. Se estas são extrassomatizações, como devem ser, do cérebro humano, há que se levar em conta a descoberta freudiana de que nosso cérebro e nossa vida psíquica são vítimas de duas forças antagônicas que se digladiam: a pulsão de vida, Eros, e a pulsão de morte, Tânatos. A batalha entre ambas é insana. Nunca saberemos que força será vencida. Se for vencida a força da vida, então, a espécie humana deverá ter sido tão só e apenas um erro da evolução.

 

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