O Tempo nas Imagens Animadas - uma abordagem semiótica Interlab

Por: Silvia Laurentiz

e-mail: laurentz@uol.com.br


Resumo

Este estudo faz uma análise das questões teóricas relativas ao tempo e imagens baseadas no pensamento periciano, estabelecendo um diálogo com outros autores e conceitos.

 

O objetivo deste trabalho é abordar questões a respeito de sistemas de signos que se desenvolvem na seqüencialidade do tempo.

Na verdade não poderíamos negar que tudo que toma forma concreta no mundo possue relações espaço-temporais de alguma espécie, esta é sua qualidade de estar materializado.

Mas o nosso objeto de estudo será exclusivamente as imagens. E Imagens podem ser definidas de maneira tão generalizada que não chegaríamos a obter respostas satisfatórias desta conceituação.

Logo, devemos restringir nosso universo ainda mais, para que possamos torná-lo acessível e funcional. Falaremos somente de imagens que possam ser vistas (e não apenas vislumbradas); que tenham sido produzidas pelo homem; e estejam sobre um suporte qualquer.

Desta forma, Jacques Aumont nos coloca uma primeira abordagem interessante para estas imagens.

Existem, conforme Aumont(1), imagens "que são idênticas a si próprias no tempo"; e existem imagens que se "modificam ao longo do tempo, sem a intervenção do espectador e apenas através do dispositivo que as produz e apresenta".

Esta é uma colocação importante para entrarmos no nosso foco principal: as imagens animadas.

Uma imagem colocada no mundo já possue estas características citadas por Aumont. Pois uma imagem única sofre alterações espaço-temporais tanto quanto uma seqüência de imagens dispostas lado a lado.

Uma imagem única sofre alterações devido ao desgate de seu suporte, por exemplo.

Assim, uma fotografia que tirei na infância não é mais a mesma hoje em dia.

Mas, quando nos referirmos a imagens dispostas lado a lado, temos que levar em consideração o tempo e espaço tanto individual de cada uma delas, quanto elas juntas formando um todo.

Assim, um 'frame' individual no espaço tem propriedades temporais e espaciais distintas daquelas que ele carrega quando colocado ao lado de outro frame.

 

Esta construção, este arranjo de frames, pode se dar em diferentes maneiras:

    a. Pode-se ter um segundo frame que é um duplo do primeiro, e isto nos dará a sensação de um prolongamento na situação temporal - é uma imagem que 'dura' um tempo para passar;
    b. Pode-se ter um segundo frame que é uma cópia do primeiro mas com alguma variação, e isto nos causará uma sensação de mudança na relação espaço-temporal.

Esta mudança pode ocorrer de maneira mais ou menos branda, dependendo do grau de mudança ocorrido entre o primeiro e o segundo frame;

    c. E, pode-se ter ainda um segundo frame completamente distinto do primeiro, e isto nos dará uma sensação de fragmentação, ao contrário do primeiro tipo, de sua situação temporal.

Manejando estas três possibilidades, poderemos contruir uma infinidade de signos que nos causarão sensações diferentes de ritmos e movimentos.

No ritmo, por exemplo, podemos obter estruturas de retração e expansão. Podemos obter um efeito de tensão e relaxamento, de rapidez e vagueza, etc...

No movimento, por sua vez, podemos criar variações espaciais das mais variadas desde que pertençam aos limites de uma tela.

O que podemos perceber de imediato é que os limites do movimento e do ritmo das imagens não possuem barreiras estanques.

Um interfere no outro, ou seja, movimentos de câmera podem nos oferecer ritmos acelerados numa cena, com tanta ou mais tensão do que uma montagem de frames distintos seguidos um do outro numa sequência estroboscópica de imagens.

Para ilustrar este argumento, podemos citar dois grandes mestres do cinema atual.

Win Wenders, em "Paris Texas," por exemplo, trabalha com movimentos amplos e lentos de câmera criando uma vagueza estarrecedora.

Já Peter Greenaway trabalha com o excesso de informação das estruturas barrocas (p.e. em "A Última Tempestade"); criando a ilusão de 'apertamento' manipulando o tempo num espaço saturado, e mesmo assim ele consegue gerar momentos de relaxamento e lentidão em algumas partes de seus filmes.

Ambos estão procurando outros domínios da sintaxe visual.

Neste momento podemos já perceber 3 momentos do tempo nas imagens: um tempo que está no mundo e deixa marcas nas coisas concretas do mundo; um tempo que está na imagem individual e é capaz de gerar diferentes ritmos, movimentos, sensações.

E há ainda um outro tempo que acontece na relação de uma imagem com uma outra imagem. A relação destas duas imagens gerará um outro tempo, ritmo, movimento que não estava naquelas imagens quando se encontravam sozinhas no mundo.

Raymond Bellour , em seu livro "Entre-Imagens"(2) trabalha exclusivamente com inter-relações das imagens a qual denomina 'passagens'. Passagens " ...entre móvel e imóvel, entre a analogia fotográfica e o que a transforma. Passagens, corolários que cruzam sem recobrir inteiramente esses 'universais' da imagem: dessa forma se produz entre foto, cinema e vídeo uma multiplicidade de sobreposições, de configurações pouco previsíveis". Com propriedade ele navega nesse terreno etéreo, ou melhor, ele flutua "entre dois fotogramas, assim como entre duas telas, entre duas espessuras de matéria, assim como entre duas velocidades..."(3)

A respeito de momentos distintos das imagens, Lúcia Santaella tem uma outra colocação que devemos trazer para esta discussão. Em seu trabalho entitulado "Imagem"(4), Lúcia estabelece 3 espécies de tempos que estariam imediatamente ligados a esta questão das imagens. O primeiro é o tempo intrínseco à imagem; o segundo é o tempo extrínseco a ela. E o terceiro é o tempo intersticial. Este último é o tempo que nasce "no cruzamento entre um sujeito perceptor e um objeto percebido, quer dizer, o tempo que é construído na e pela percepção. Em todos os seus níveis, a percepção é feita de tempo."

Santaella ainda define três tipos de tempos da percepção: o tempo fisiológico, o biológico e o tempo lógico.

O tempo fisiológico é o do interior daquele que as percebe; o tempo biológico, um tempo exterior daquele que as percebe; e o tempo lógico seria uma síntese desta percepção, deste acontecimento. Desta forma, o tempo lógico é aquele que se dá na relação entre as imagens e o seu receptor. Do ponto de vista da imagem, elas possuem qualidades temporais que podem ser percebidas desde que encontrem um interpretante em condições para percebê-las, enquanto que do ponto de vista do receptor, este possue qualidades de recepção que podem vir a perceber as qualidades das imagens, mas somente aquelas que forem possíveis através de suas qualidades de recepção.

Assim, há um tempo no mundo, há um tempo da imagem - que está neste mundo, há um tempo do espectador que observa a imagem- que também está no mundo, e há um tempo sintético da relação entre os dois últimos. E é nesta síntese que se dá o reconhecimento do tempo. E este reconhecimento do tempo pode ser de diferentes níveis como veremos através de alguns autores.

Na verdade, a idéia de um tempo do espectador que se inter-relaciona com um tempo da imagem que ele observa já foi muito explorado.

Jean-Marie Schaeffer em "Imagem Precária" (5), ressaltou aquela qualidade de uma imagem que por si só não existe mas que é capaz de transmitir, pois o espectador coloca algo nesta imagem que é seu e acresenta alguma coisa à ela.

Schaeffer explica o que vem a este "arché" da fotografia: "uma fotografia funciona como uma imagem indicial contanto que se saiba que se trata de uma fotografia e o que este fato implica"(6).

Em outras palavras, referindo-se à fotografia, mas podendo ser extendido para outras mídias, tem que se compreender todos os aspectos da convencionalidade da fotografia para que ela funcione como um índice do real, por exemplo. Ou seja, uma fotografia representa através de uma norma que deve ser interpretada. E esta interpretação é uma síntese de dois momentos distintos no tempo.

Jacques Aumont , em seu livro "A Imagem"(7), levanta a tese de que esta alguma coisa a mais que não está na imagem, mas que é capaz de transmitir a seu espectador, é um saber sobre a gênese da imagem, sobre seu modo de produção. A imagem possui um modo de emprego que seu espectador supostamente conhece. E isto diz respeito também à temporalidade desta imagem. Se agora pensarmos no cinema, muitas são as convenções criadas por este meio que poderiam ser interpretadas por duração, sensação de tempo, ou ainda, uma representação do tempo. Há as imagens que duram, as montagens e colagens, as seqüências e os intervalos, as metáforas e metonímias, isto sem falar do tempo cultural que os diferentes estilos cinematográficos denotam, visto quepodemos diferenciar um cinema do expressionismo alemão de um construtivista russo, de uma 'nouvelle vague' francêsa.

Indo um pouco mais além, mas ainda sobre a relação entre imagem e receptor, Deleuze, em seu livro "Imagem-Tempo"(8), lança o conceito de imagem-cristal. Esta noção de imagem cristal designa a coexistência de uma imagem atual e uma imagem virtual. A Atual, que se encontra no presente, está atualizada no presente vivido, e a virtual, que habita o passado, coexiste na imagem no presente, é o passado no presente. Para Deleuze a própria noção do tempo foi alterada através do cinema. O fator primordial apontado por Deleuze é a irredutibilidade deste aspecto da imagem, onde a imagem atual e sua imagem virtual formam uma unidade indivisível.

Poderíamos colocar, se quisermos ampliar esta noção de Deleuze, que o atual é o objetivo, enquanto que o virtual seria o subjetivo da imagem. E a subjetividade a que se refere não é a nossa subjetividade psicológica, é no mesmo território do tempo a que está se referindo. Um tempo que habita na mais pura virtualidade.

Outro ponto é levantado por Arlindo Machado em "Cinema e virtualidade"(9). Desde que o cinema passou a usar excessivamente a câmera subjetiva podemos notar uma crescente hipérbole do sujeito. Câmera subjetiva é "um tipo de construção cinematográfica em que há uma coincidência entre a visão dada pela câmera ao espectador e a visão de um personagem particular. Em outras palavras, eu - espectador - vejo na tela exatamente o que o personagem vê no seu campo visual"(10) onde o sujeito insere 'ele mesmo' no filme. Com esta supremacia do sujeito há uma supervalorização do tempo do sujeito em detrimento do tempo da imagem. Nos jogos interativos do tipo videogame isto torna-se mais evidente. "Em alguns casos, como nas simulações de corridas de automóveis ou de vôos de aviões, essa inserção se dá, tal como no cinema, através da modalidade clássica da câmera subjetiva, com o jogador assumindo o assento do piloto e observando na tela do vídeo o percurso que ele próprio determina através do manejo dos instrumentos de bordo, com as imagens mostradas sempre a partir de seu próprio ponto de vista."(11)

O sujeito, que está 'jogando' aquelas imagens, controla a ação dos acontecimentos. A imersão é de tal forma que o usuário chega a confundir as barreiras entre aquelas imagens e sua própria pessoa. O tempo de um quase se toca no tempo do outro. A ponto de não distinguimos, por alguns instantes, onde começa o tempo de um e o do outro.

Os sistemas de realidade virtual prometem extrapolar todas estas barreiras, no momento em que 'mergulhamos' dentro das imagens e dos sons virtuais gerados pelo computador.

Para Prigogine, eminente físico contemporâneo, a descoberta da irreversibilidade de alguns fenômenos nos coloca diante da perspectiva da evolução progressiva do universo. Para ele existe uma corrente de irreversibilidade que é um dos elementos constitutivos do universo. Neste sentido o universo é uma evolução irreversível.

"Eistein já reconhecera explicitamente que os problemas do espaço-tempo e da matéria estavam ligados. Atualmente devemos ir mais longe, compreender que a estrutura do espaço-tempo está ligada à irreversibilidade ..."(12). "A evolução do universo não se deu na direção da degradação mas na do aumento de complexidade, com estruturas que aparecem progressivamente a todos os níveis, desde as estrelas e as galáxias aos sistemas biológicos."(13).

E Prigogine conclue que o tempo não é nem ilusão nem dissipação, mas sim criação.

E aqui Prigogine nos aproxima do pensamento peirciano. O tempo sendo criação vem de encontro com a semiose periciana, e como bem colocado por Santaella: "Tempo é sinonimo de semiose ou ação do signo; onde há tempo, há ação do signo. A ação do signo é gerar um interpretante e esta ação desenvolve-se no tempo".

A semiose é a ação num contínuo do signo, e continuidade é tempo, para Peirce: "The whole conception of time belongs to genuine thirdness" (CP 1.384).

Tempo para Peirce é uma variação de espaço onde as coisas ocorrem ou duram, portanto, a representação linear e cronológica é apenas uma forma precária de representá-lo. Lucia Santaella tem dois textos que se referem exclusivamente a estas questões sobre a noção de tempo para Peirce: "Time as the logical process of the sign"(14) e "Sign and Time in the Semiotics of Charles Sanders Peirce"(15). Sobre os signos nesta continuidade do tempo - e tempo passa a ser sinônimo de continuidade, mente, vida, inteligência - Lucia nos diz: "All actualized signs are mixtures of continuity and discontinuity, because pure continuity or time is an abstraction, not an empty abstraction, but an abstraction that guides the action of signs when and wherever they are actualized".

Depois de todo este levantamento teórico chegamos à razão deste meu trabalho. Viemos percorrendo estas questões para perguntarmos, finalmente, como fica a noção de tempo com as novas tecnologias, com os novos meios eletrônicos? Como disse Deleuze sobre o cinema ter mudado nossa noção de tempo, podemos agora dizer o mesmo sobre as medias eletrônicas?

Esta imersão no espaço virtual do computador modifica nossa noção de tempo e espaço?

O computador pode gerar o movimento de um objeto a partir de parâmetros matemáticos, e não mais a partir de frames colocados lado a lado como em animações tradicionais. Além disso, ele nos permite participar das decisões sobre os acontecimentos que se desenrolam neste universo virtual. Isto já é suficiente para provocar mudanças na nossa percepção das relações espaço-temporais das imagens?

E, ainda, navegar na Internet já não quebra todas as expectativas que tinhamos sobre as grandes distâncias? E se mudam nossas expectativas espaciais, conseqüentemente não mudam nossas expectativas temporais?

Não procuro ainda por respostas, antes disso, estou aqui para perguntá-las.

 

Referência Bibliográfica

Aumont, Jacques. "A Imagem", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1993. (Original title in French: "L'Image", Éditions Nathan, 1990).

Bellour, Raymond. "Entre-Imagens - Foto, Cinema, Video", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1997. (Original title in French: "L'Entre-images - Photo, Cinema, Vidéo", E.L.A/La Difference, 1990).

Deleuze, Gilles. "A Imagem-Tempo", Ed. Braziliense, São paulo, Brasil, 1990. (Original title in French: "L'Image-temps", Les Éditions de Minuit, 1985).

Machado, Arlindo. Cinema e Virtualidade in "O Cinema no Século" org. Ismail Xavier, Ed. Imago, Rio de Janeiro, Brasil, 1996.

Prigogine, Ilya. "O Nascimento do Tempo", Edições 70, RJ, Brasil, 1990. (Original title: "La Nascita del Tempo", Edizione Theoria s.r.l., Roma, 1988).

Santaella, Lúcia. Time as the Logical Process of the Sign. in "Semiotica" 88 - ¾, Berlim,1992, 309 - 326.

Santaella, Lúcia. Sign and Time in the Semiotics of Charles Sanders Peirce, in print.

Santaella, Lúcia & Nöth, Winfred. "Imagem", Ed. Iluminuras, São Paulo, Brasil, 1998.

Schaeffer, Jean-Marie. "A Imagem Precária - Sobre o dispositivo fotográfico", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1996. (Original title in French: "L'Image Précaire - Du dispositif photographique", Éditions du Seil, 1987).

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NOTAS

(1) Aumont, Jacques. "A Imagem". Ed. Papirus, São Paulo, Brazil, 1993. (Título Original em francês: L'image. Éditions Nathan, 1990)

(2) Bellour, Raymond. "Entre-Imagens - Foto, Cinema, Video", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1997. (Título original em francês : L 'Entre-images - Photo, Cinema, Vidéo. E.L.A?La Difference, 1990)

(3) Idem, Idem, pag 15.

(4) Santella, Lúcia e Nöth, Winfried. "Imagem", 1998.

(5) Schaeffer, Jean-Marie. "A Imagem Precária", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1996. (Título em francês: Límage précaire - Du dispositif photographique. Éditions du Seil, 1987)

(6) Idem, Idem, pg 38.

(7) Aumont, Jacques. "A Imagem". Ed. Papirus, São Paulo, Brazil, 1993. (Título Original em francês: L'image. Éditions Nathan, 1990)

(8) Deleuze, Gilles. "A Imagem - Tempo". Ed. brasiliense, São Paulo, Brasil, 1990. (Título original em francês: L'image-temps. Les Éditions de Minuit, 1985)

(9) Machado, Arlindo. Cinema e Virtualidade in "O Cinema no século" org. Ismail Xavier. Ed. Imago, RJ, Brasil, 1996.

(10) Idem, idem, pg 173.

(11) Idem, idem, pg 174.

(12) Prigogine, Ilya. "O Nascimento do Tempo". Edições 70, RJ, Brasil, 1990 (Título original: La Nascita del Tempo. Edizioni Theoria s.r.l., Roma, 1988), pg 73.

(13) Idem, idem , pg 74.

(14) Santaella, Lúcia. Time as the logical process of the sign. in Semiotica 88 - ¾ (1992),pg. 309 - 326

(15) Santaella, Lúcia. Imagem, 1998.

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