lázlò moholy-nagy (1895-1946)

A atividade propedêutica de Moholy-Nagy sempre se deu em regime de cooperação com seu processo de criação. Na verdade, é improvável que se possa separar um do outro, pois Moholy via toda a sua produção como um conjunto, não importando se ela se destinava a um curso da Bauhaus ou a uma exposição individual. Moholy voltou-se para todas as linguagens que tinha à sua disposição: fotografia, desenho, pintura, escultura, design, arquitetura, teatro. Foi, por assim dizer, um artista multimídia, mas com uma noção clara do caráter intersemiótico que esta postura impunha. 

Cabe observar, aliás, que a tendência a trabalhar com várias linguagens simultaneamente é permanente em todas as manifestações de vanguarda, nos quatro cantos do planeta. A vanguarda sempre foi tributária da noção de Gesamtkunstwerk, desenvolvida pelo compositor alemão Richard Wagner e que influenciou, na Alemanha, até mesmo seu pioneirismo no ensino das Artes e Ofícios. A Bauhaus nasceu diretamente desta tradição e se o aspecto intersemiótico é por vezes pontual em alguns dos movimentos de vanguarda, no caso dos autores aqui citados é um fato incontestável. A interdependência entre os códigos empregados obedece ao princípio unificador da mensagem a ser transmitida de forma que os diálogos entre as várias produções, em vários códigos diversos, são encontráveis de forma constante. 

Moholy foi para a Bauhaus a partir de um convite de Walter Gropius, que desejava um substituto para o expressionista Johannes Itten que abandonara a escola por discordar de uma tendência construtivista que se afirmava então. Moholy já militava neste ponto de vista artístico e sua chegada à Bauhaus afirmava uma tendência que a partir de então não sofreria reversão. Mas ele também era um apaixonado pelos artefatos tecnológicos. Alguns de seus quadros teriam sido produzidos por telefone (muito embora testemunhos da época desmintam este fato). Realidade ou não, o que importa é que já aí podemos encontrar algum elo de ligação com o que hoje nos deparamos. Mas essas conexões vão muito mais longe do que uma anedota.

Seus dois livros publicados na Bauhaus, Von Material zu Architektur e Malerei, Fotografie, Film (Pintura, Fotografia, Filme (1925) e Do material à Arquitetura (1929) este republicado nos Estados Unidos com o nome de A Nova Visão (1930), com alguns trechos do outro livro) são indiscutíveis premonições do tipo de lógica que hoje preside os CD-Roms (inclusive aqueles destinados ao puro entretenimento). Os livros são fartamente ilustrados (não raro a ilustração substitui o próprio texto) e sua organização gráfica e temática permite uma leitura em múltiplas direções, como devia convir a qualquer manual. Não é improvável que a forma de organização de Ponto e linha sobre o Plano de V. Kandinsky tenha também se beneficiado deste espírito, reinante na Bauhaus, em que forma e conteúdo dos livros se renovavam diante das demandas de uma nova forma de ensino. 

Da mesma forma, Moholy teorizou e realizou filmes em que punha em prática os mesmos princípios que norteavam seu trabalho didático. De 1922 a 1930 trabalhou no seu Modulador Espaço-Luz, uma espécie de escultura cinética destinada a estudar o problema da reflexão/ refração e transparência dos materiais (aço, plexiglass) em função da luz. O trabalho resultou em um filme que intenta "registrar" os efeitos produzidos. O termo aparece entre aspas porque Moholy certamente estava ciente de que esta é uma função que o aparato cinematográfico não está capacitado a realizar e fez assim um filme que se constitui em um outro trabalho derivado do primeiro.
 
 
 

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Modulador espaço-luz, 1922-30 (reconstrução)




Nesse aspecto, o que mais impressiona é o roteiro Dinamik der Großtadt (Dinâmica da Cidade Grande, 1922) um filme que apenas seria realizado em 1926. Provavelmente a versão definitiva guarda menos interesse para nós hoje do que este roteiro, espécie rara de combinação de signos verbais e não-verbais, números, fotos de autoria do próprio Moholy e de outros artistas importantes da época (inclusive fotogramas de filmes). De certo o que hoje nos interessa é o projeto, na medida em que, no esforço de ultrapassar os limites bidimensionais do texto, transforma-o em uma seqüência paratática de informações cruzadas. 

Lucio Agra 
 
 

Nas suas experiências com fotografia, utilizou desde alguns procedimentos presentes na obra de A. Rodtchenko como ângulos inusitados, passando pelo uso do próprio papel fotográfico manipulado no laboratório, ou fotografia sem câmera, processo também experimentado por Man-Ray e seus Rayogramas. Além disto, voltou-se para a fotomontagem na qual, assim como Lissitsky, explorou os recursos de combinação foto-desenho, produzindo espaços inusitados. Todas estas experiências, aliás, foram levadas a cabo por outros artistas do período. Vale supor o mesmo que se disse acima com relação a El Lissitsky e a RV

No teatro, Moholy buscou um tipo de cena cujos protagonistas seriam exclusivamente cores, luzes e sons. Moholy chegou a projetar e executar vários cenários, incluindo produções de Erwin Piscator, dentro da proposta deste do teatro total (Totalbühne). Kristina Passuth ressalta que Moholy estava interessado no teatro não como encenador (caso de Oskar Schlemmer, com que entreteve intensa colaboração) mas "sobretudo como uma possível variante de um sistema de forças dinâmico-construtivas" (PASSUTH, 1987:56). Em um de seus livros, Moholy apresenta um "esboço de partitura" teatral no qual é impossível não ver relações com um projeto multimídia. Experiências como essa ainda aguardam sua versão digital. 


Bauhaus - Escola de design e arte alemã (1919/1933) fundada por Walter Gropius. A Bauhaus não foi, ao contrário do que muitos pensam, a criadora da arquitetura moderna. Embora tenha sido criada como uma escola cujo objetivo último era a arquitetura, a ênfase nessa linguagem só se deu na sua última fase (período de Dessau 1926-32 e Berlim, 1933). Na verdade, a Bauhaus foi onde se gerou o design moderno e tornou-se um ponto de confluência das principais tendências de vanguarda dos anos 20 não somente na arquitetura mas em todos os campos da arte. 

Entre os vários artistas fundamentais que por lá passaram ou nela ensinaram, conta-se Vassili Kandinski, Oskar Schlemmer, Lázlo Moholy-Nagy, Kurt Schwitters, El Lissitsky, Paul Klee, Josef Albers, Piet Mondrian, Johannes Itten e muitos outros. 
Bauhaus Dessau (detalhe do prédio)

A Bauhaus deriva de uma tradição alemã de ensino das Artes e Ofícios desde o século XIX. O nome mais importante desta linhagem é sem dúvida o de Henry Van de Velde cujo discípulo, Walter Gropius, acabaria por ser indicado como diretor de uma nova escola de Artes e Ofícios a se inaugurar após a I Guerra Mundial e que ele batizou de Bauhaus (Bau do verbo bauen, construir, haus, casa). 

Erwin Piscator - Diretor de teatro alemão dos anos 20, explorou técnicas de direção e representação que fizeram escola. Trabalhou em estreita colaboração com artista de vanguarda como Brecht, Moholy-Nagy e Schlemmer. Possuía uma sede própria o Teatro Piscator onde buscou pesquisar o teatro total (totalbühne). 

parataxe/hipotaxe- Dois modos de organização dos signos em uma linguagem verbal (com palavras) ou não-verbal (com outros signos além das palavras). A parataxe é o que em gramática se chama "coordenação". Nela, todos os elementos que compõem o sistema se equivalem. A hipotaxe, ou "subordinação", pressupõe uma hierarquia entre os elementos do sistema. 

Gesamtkunstwerk - A palavra alemã designa "obra de arte total" que englobaria todas as formas de linguagem em uma perspectiva que hoje chamaríamos multimídia. O compositor alemão Richard Wagner procurou construir suas óperas como Gesamtkunstwerken e não é incoumum o comentário de que Wagner já possuía uma concepção intersemiótica da arte. 

escultura cinética - Escultura cujo princípio de construção e observação baseia-se no movimento. 

plexiglass- Monômero de metil-metacrilato até hoje usado pela indústria. O plexiglas teve uma era de ouro no design, após ser desenvolvido comercialmente em 1931 pelas indústrias Röhm e Haas a partir de pesquisas sobre o material feitas desde 1901 pelo cientista Otto Röhm. O conhecido acrílico vem a ser a forma leve e barata do antigo plexiglas. Os monômeros combinam-se em polímeros dos quais um exemplo bastante conhecido e empregado é o silicone. 

Man-Ray (1890-1976) - fotógrafo americano que viveu muitos anos em Paris e juntamente com Cartier-Bresson, Rodtchenko, Lissitsky, José Oiticica Filho e outros faz parte de um conjunto de artistas que exploraram os limites da fotografia moderna. Os rayogramas de Man-Ray eram fotografias feitas sem câmera, através da sobreposição de objetos no papel fotográfico, no próprio laboratório. Lázlo Moholy-Nagy fez uso da mesma técnica nos anos 20, quase que simultaneamente. Nos anos 50, no Brasil, José Oiticica Filho, pai de Hélio Oiticica, também explorou esse recurso. 

Realidade Virtual (RV) - O termo designa a capacidade que certos programas contemporâneos têm de simular - através de hardware apropriado - a sensação de estar "dentro" das imagens do computador. Os recursos incluem óculos em 3D, e fones de ouvido. Os apetrechos para o tato encontram-se em estudo avançado mas na prática permanecem especulação. A realidade virtual reforça a noção de interatividade homem-máquina.


Bibliografia 

PASSUTH, Krisztina Moholy-Nagy Londres, Thames & Hudson, 1987. 

KOSTELANETZ, Richard (ed.) Moholy-Nagy: an anthology New York, Praeger, 1970. 

MOHOLY-NAGY, Lazlo La nueva visón: Principios basicos del Bauhaus Buenos Aires, Ediciones Infinito, 1985.