Literatura e Cinema
Para uma visão reflexiva

A relação entre literatura e cinema pode ser discutida em muitas dimensões. A questão da adaptação literária normalmente gera muito debate na medida em que a fidelidade da adaptação fílmica com a obra literária de origem se torna erroneamente o foco da discussão. No entanto, com o passar do tempo a adaptação literária começou a ser estudada sendo baseada na idéia de que livro e filme devem ser vistos como dois extremos de um processo e duas linguagens diferenciadas.
Segundo importantes literatos e também tradutores, dentre eles Ezra Pound e Haroldo de Campos, concordam que a prática tradutória de qualquer texto requer o princípio de recriação, portanto, o tradutor se torna uma espécie de recriador do texto original.
O processo de tradução ocorre da mesma forma com a passagem da linguagem literária à linguagem cinema, só que dessa vez como tradução de linguagens. De acordo com Ismail Xavier (2003), por mais que esse processo abarque as alterações de sentido em decorrência do tempo em que estão distanciados, da sensibilidade própria de cada leitor e das particularidades de cada linguagem – o cinema com a imagem, trilhas sonoras, encenação de palavras, entre outras em contraposição ao silêncio da literatura e o uso predominante da imaginação do leitor - é possível que haja um diálogo efetivo entre as duas linguagens.

O cineasta é responsável pela leitura que faz, e a partir dela o debate estabelecido não deve girar em torno da fidelidade à obra, uma vez que não é possível conceber uma única interpretação para o texto lido. Os leitores têm visões, valores, ideologias e imaginação singulares, portanto, cabe ao espectador avaliar se o cineasta conseguiu transmitir a sua interpretação particular para o cinema de maneira criativa. Em vista disso, a fidelidade ao original deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência. Afinal, além de livro e filme estarem distanciados no tempo e espaço, escritor e cineasta não têm a mesma sensibilidade.

Como forma de aproximar essas duas linguagens, selecionamos uma série de adaptações literárias e programas com autores palestrando ou dando entrevistas sobre temas relacionados à literatura.
Juliana Muscovick – estagiária responsável pela elaboração do Guia de filmes de História,Videoteca PUCSP 2010.

Filmes:
• Albert Camus, uma tragédia da felicidade
• Decameron
• Documentário especial: Clarice Lispector
• Entrevista com Plínio Marcos
• Galáxias de Haroldo de Campos
• James Joyce
• Lolita
• O Idiota
• O Processo


Albert Camus, uma tragédia da felicidade

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O documentário trata da trajetória do escritor e ganhador do Prêmio Nobel Albert Camus(1913 – 1960) que, sob o signo do existencialismo filosófico, transpassa para suas obras alguns dos dilemas pessoais que o acompanharam a vida inteira. Dotado de um espírito político contestador e cético, passa a vida lutando em prol da paz na Argélia, sua terra-natal, e escreveu obras singulares como O Estrangeiro, O mito de Sísifo, A Peste e O Homem Revoltado.
Há também disponível para locação o filme A Peste de Camus, adaptação literária da obra feita em 1992, por Luiz Puenzo.

FRA, 1998 Documentário
Direção: CKF Productions 55’min. VHS

 

Decameron
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O cenário apocalíptico da propagação da peste bubônica na Idade Média serviu de inspiração para Bocaccio (1313 – 1375) escrever Decameron, constituído por 100 histórias variadas que ilustram a sociedade italiana medieval. Em versão ousada, crítica e repleta de humor, Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975) adapta algumas dessas histórias, inspirando-se na sociedade atual, e por meio dos recursos cinematográficos, satiriza a Igreja e lança doses liberais de vida e amor.
Dentre as histórias estão a de uma esposa traiçoeira com habilidade para negócios; um artista tuberculoso à beira da morte que tenta trapacear com as leis celestes; jovens amantes apanhados com as calças na mão; um criado que perde a cabeça por amor e um simplório fazendeiro que tenta transformar sua esposa numa égua.
Essa é a primeira parte da “Trilogia da Vida”, que posteriormente contará com mais duas ousadas adaptações literárias, “Os Contos de Canterbury” e “As Mil e Uma Noites”, também disponíveis no acervo, além da adaptação Medéia e outros riquíssimos roteiros de sua autoria como Mamma Roma e Accattone: desajuste social.

ITA, 1971 Documentário
Direção: Pier Paolo Pasolini 112’

 

Documentário especial: Clarice Lispector
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No mesmo ano de sua morte, Clarice Lispector (1925 - 1977) concede à TV Cultura uma entrevista acerca de sua trajetória, seus sentimentos em relação ao seu processo de criação e interpretação de seus textos. O programa é especial por ser uma das únicas vezes em que Clarice concordou em se expor aos holofotes da televisão, com a prerrogativa de que o programa poderia ser transmitido apenas após a sua morte. É com certo estranhamento que a escritora exprime ao público as sensações despertadas no decorrer da construção de suas diversas obras, dentre elas O Ovo e a Galinha, Água Viva, A Paixão Segundo GH e A Hora da Estrela.

BRA, 2003 Documentário
Direção: Videocultura 56’
Com mais três entrevistas da série Panorama da TV Cultura, com o cineasta Mario Kuperman, a escritora Márcia Denser e Tatiana Berlinck.

 

Entrevista com Plínio Marcos
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Alvo de censuras pelo alto teor realista e político de suas obras, principalmente nas décadas de 60 e 70, o entrevistado da vez do Projeto Cena Aberta é o escritor Plínio Marcos (1935-1999). Autor de diversos livros adaptados para o Teatro, dentre eles Barrela e Dois Perdidos numa Noite Suja, e para o cinema com Navalha na Carne e Querô, Plínio Marcos, além de dramaturgo, atuou como jornalista, ator e diretor.
Com a participação de Antonio Abujamra e outros entrevistadores, o polêmico artista relembra algumas passagens de sua trajetória no meio das artes e, despojadamente, critica a situação das artes dramáticas.

BRA, 1998 Documentário
Direção: Studio B 60’

 

Galáxias de Haroldo de Campos
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Membro-fundador do movimento de poesia concreta do Brasil, inaugurado em 1956, Haroldo de Campos (1929 – 2003) discorre com alunos da PUC SP sobre evolução literária da prosa poética em sua obra Galáxias (1984). O poeta é autor de diversos obras, dentre elas Xadrez de Estrela, Crisantempo e A Máquina do Mundo Repensada, ensaísta de diversos textos sobre o processo tradutório que, segundo ele afirma, é uma prática de recriação do texto a ser traduzido e sublime “transcriador” de poemas de Homero, Dante, Mallarmé, Goethe e Mayakovski.
A Videoteca possui em seu acervo outros vídeos em que o exímio poeta e ensaísta discorre sobre variados temas relacionados à arte. São eles:

• São Paulo de Haroldo de Campos. - No documentário, Haroldo de Campos descreve sua relação com cidade de São Paulo e comenta o rico patrimônio arquitetônico que a metrópole apresenta.

• Poetas de Campos e Espaços- O vídeo trata das formas de poesia relacionadas com a música, cinema, cultura, artes plasticas e gráficas. Com a participação de outros importantes membros do movimento concretista brasileiro, tais como Augusto de Campos e Décio Pignatari, além de Haroldo de Campos, o documentário trata esclarecer em que ponto a poesia concreta relaciona-se com as transformações industriais e urbanas, na medida em que novas estruturas de fazer poema combinados a espacialidade, verbalidade, sonoridade e visuabilidade são criadas.

BRA, 1998 Encontro
Direção: Videoteca PUC SP 85’

 

James Joyce
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Influente escritor da literatura moderna inglesa, James Joyce (1882 – 1941) deixou seu legado na medida em introduziu as técnicas de monólogo interior e o fluxo de consciência das personagens em suas obras. Essas técnicas evidenciam que na consciência humana, o passado e o presente se interpenetram, quebrando assim os limites de espaço e a linearidade da obra. Dentre as inovadoras obras de James Joyce, estão a série de contos Dublinenses e os romances Retrato do Artista Quando Jovem, Ulisses e Finnegan’s Wake.
Nesse programa da série Grandes Mestres da Literatura, o romance Ulisses é analisado de capítulo a capítulo por meio de uma montagem e comentado por professores e especialistas da área de literatura. Também estão disponíveis para a locação os programas sobre outros notáveis escritores como Franz Kafka e Marcel Proust.

BRA, 1997 Documentário
Direção: TV Cultura 120’
Serie: Grandes Mestres da Literatura

 

Lolita
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Com um toque de humor negro, Stanley Kubrick adapta a controversa obra de Vladimir Nabokov, Lolita. Os elementos específicos do cinema, tais como a planificação, movimentos de câmera, angulação e montagem foram sagazmente explorados pelo cineasta no intuito de não causar uma reação negativa aos olhos dos produtores e dos espectadores.
O filme trata de um professor universitário se apaixona por uma garota de 14 anos e, para ficar perto dela, resolve se casar com sua mãe. Porém, quando ele acredita ser o momento adequado para seduzir a garota, seu plano não sai como o previsto.
Dotado de um espírito meticuloso, porém ao mesmo tempo independente, Stanley Kubrick tem como especialidade a adaptação de obras literárias, no entanto não deixa de fora o seu viés sarcástico e original nelas. Dentre as adaptações estão O Iluminado, Laranja Mecânica, Barry Lyndon e Dr. Fantástico, todas disponíveis para locação. Além de um excelente diretor, a maestria de Stanley Kubrick se evidencia também em seus roteiros originais, tais como em Nascido para Matar, 2001 – Uma Odisséia no Espaço, De Olhos Bem Fechados, Glória é Feita de Sangue e Spartacus, também disponíveis no acervo da Videoteca.

EUA, 1962 Drama
Direção: Stanley Kubrick 152’

 

O Idiota
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O cinema, assim como qualquer tipo de arte,inclusive a literatura, é a expressão de um indivíduo, de uma nação e de uma cultura e Akira Kurosawa (1910-1998), mestre do cinema oriental, é o grande responsável pela entrada do cinema asiático no ocidente. Dotado de uma sensibilidade extremamente aguçada para captar as mínimas sensações e detalhes, o cineasta “populariza” uma cultura fechada ao tratar de questões indissociáveis do pensamento oriental, como a amizade e a honra. Seus filmes geralmente se desenrolam em cenários de lindas paisagens, contendo sons da natureza e do ambiente, acompanhados de uma serena sensação de saudosismo e sonho.
Leitor frenético, Kurosawa levou às telas de cinema o complexo mundo de Fiodor Dostoievski (1821-1881) ao adaptar a obra O Idiota. O filme conta sobre o retorno de Kameda, ex paciente de uma clínica de repouso, à Hokkaido. Ao chegar a seu destino, o sensível rapaz fica dividido entre o amor da excêntrica Taeko e a doce e desesperançosa Ayako. Seu amor à Taeko, no entanto, sofre o tormento de seu rival, Akama, que a todo o tempo faz o o possível para que não fiquem juntos, provocando no desolado rapaz um dilema entre a realidade e a ilusão de seus desejos. Na tentativa de adentrar o universo do autor da obra, Kurosawa ambienta o longa-metragem em meio a uma paisagem de muita neve, o que torna o filme, assim como a obra é, muito denso. Omitindo quase 100 minutos de filme e contra a vontade do diretor, o longa foi rispidamente editado pelo estúdio e a versão original nunca foi lançada.

Além de Hakuchi (O Idiota), a Videoteca possui também em seu acervo os filmes Depois da chuva, Rapsódia em agosto, Dersu Uzala, Sonhos, Os Sete Samurais, entre outros títulos do cineasta.
Outras obras de Dostoievski foram ao cinema, como é o caso do magnífico filme de Luchino Visconti, Noites Brancas, e Nina, dirigido por Heitor Dhalia, livremente adaptado de Crime e Castigo, todos disponíveis para empréstimo.

JAPAO, 1998 Drama
Direção: Akira Kurosawa 164’

 

O Processo
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O clima sombrio e claustrofóbico vivido pelo personagem Joseph K, em O Processo, de Franz Kafka (1883-1924) , foi transmitido ao cinema através da lente de Orson Welles (1915-1985). Envolto no conflituoso e existencial universo kafikaniano, a montagem do longa-metragem é trabalhada de forma sofisticada para a época e, por escolha do cineasta, o filme se desenrola a partir de acontecimentos da 2º Guerra Mundial. O filme trata da história de Joseph K, que após ser preso e responder a um processo, passa a tentar descobrir o motivo pelo qual está sendo acusado pelas autoridades.
Além das adaptações literárias, dentre elas Dom Quixote e as tragédias shakesperianas de Mcbeth e Otelo, Orson Welles conta com mais algumas brilhantes direções, incluindo o inovador Cidadão Kane, Soberba, a Dama de Shangai, O estranho, Mr. Arkadin e o controverso documentário Nem Tudo é Verdade, todas disponíveis para empréstimo.

França / Alemanha / Itália 1998 Drama
Direção: Orson Welles 119’

 
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