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Um ano após a morte de Alexandre Vannucchi Leme, a USP voltou a ser alvo da repressão e vários militantes estudantis foram detidos. Essa nova onda de prisões provocou indignação entre os estudantes, que em assembleia decidiram criar o Comitê de Defesa dos Presos Políticos (CDPP).
Em 1975, novas mobilizações ocorreram na USP, quando um grupo de alunos trotskistas, insatisfeitos com a gestão do diretor Manuel Nunes Dias, na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, realizou vários protestos e convocou uma assembleia, que decidiu por entrar em greve. Essa mobilização, que durou 73 dias, tinha como principal reivindicação a saída do diretor Nunes Dias, conhecido por reprimir alunos e professores da Escola.
Foi por essa época, que de modo a enganar a repressão, os estudantes universitários filiados a partidos políticos proibidos durante a ditadura, passaram a se chamar por determinados nomes, chamados de “tendências políticas”. Esses nomes ainda podiam variar de universidade para universidade, de modo a confundir ainda mais a polícia política. Na PUC-SP, a tendência Caminhando era a Unidade, e a Libelú era a Liberdade e Ação. Já na Cásper Líbero, a Caminhando era a Construir e assim por diante.
Esse período de formação das tendências estudantis foi um período de intensa retomada de estudos e debates sobre teorias políticas e a situação do país que se refletia em disputadas assembleias estudantis.
Foi durante o ano de 1975 que a repressão da Ditadura se abateu sobre o PCB, na operação que ficou conhecida como Operação Jacarta e que deteve centenas de pessoas por todo o país¹ . O jornalista e então diretor do Departamento de Telejornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, foi preso no dia 25 de outubro. Embora não fosse um quadro importante nesse partido, Herzog foi brutalmente torturado e assassinado. A versão oficial do Estado sobre a morte de Vladimir Herzog foi a de suicídio.
O sindicato dos Jornalistas organizou um culto ecumênico na Catedral da Sé e embora os militares tratassem de dificultar o acesso da população ao culto, mais de 8 mil pessoas estiveram presentes na Catedral. Muitos professores e estudantes da PUC-SP estiveram presentes nessa missa, inclusive Dom Paulo Evaristo Arns.
É a partir desses eventos que o movimento estudantil se reergue em todo o país. Na USP, os estudantes criaram o seu DCE-Livre, que recebeu o nome de Alexandre Vannucchi Leme, o aluno da Universidade assassinado em 1973. Em 1976, estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ignoraram as proibições e realizaram eleições diretas para a diretoria do Diretório Central dos Estudantes.
Em 1975 já haviam ocorrido as reuniões e encontros nacionais de estudantes de uma mesma área de estudo, eventos que não eram considerados ilegais pelo regime, pois tinham como objetivo discutir questões relacionadas a essas áreas. Mas essas reuniões e encontros ajudaram os estudantes a se articularem politicamente em nível nacional. Assim, aconteceu paralelamente a essas reuniões, em abril de 1976, na Física da USP, a primeira Reunião Nacional dos Estudantes de todo o país. Daí em diante, o movimento estudantil começou a assumir um contorno nacional.
Em 1977 os estudantes voltaram às ruas depois de nove anos desde a promulgação do AI-5.A primeira manifestação pública aconteceu em 30 de março em São Paulo, cujo objetivo era denunciar a situação precária do ensino superior. Os estudantes contaram com o apoio de lideranças da PUC- SP e de outras escolas superiores particulares de São Paulo.
O governador do Estado, Paulo Egydio Martins emitiu um comunicado no qual, embora reconhecesse como justa a reivindicação dos estudantes, considerava ilegal a manifestação. Ao então secretário de Segurança Pública, o coronel Antonio Erasmo Dias, foi ordenado que impedisse a manifestação. O coronel mobilizou milhares de policiais militares e dezenas de agentes do DOPS; cercou o trânsito nos arredores do Largo do Arouche e da cidade Universitária com as policias militar e viária, parando veículos e revistando as pessoas. Informados do cerco, os estudantes alteraram o trajeto da manifestação, caminhando até o Largo de Pinheiros e retornando à USP. No dia seguinte, o governador convidou uma comissão de estudantes para discutir o problema das verbas da Universidade de São Paulo e das anuidades nas escolas particulares.
Na Universidade de Brasília UnB os estudantes reivindicavam o fim da jubilação e das taxas impostas pela secretaria para a expedição de documentos. A falta de diálogo e a crescente insatisfação dos estudantes resultou assim em uma greve de dois meses.
O primeiro fato que deslocou o foco do movimento estudantil das reivindicações educacionais para questões diretamente políticas foi a prisão de um grupo de militantes estudantes e operários, na véspera do dia 1º de maio 1977, detidos com panfletos que convocam um protesto para o Dia do Trabalho. A detenção dos três foi seguida de outros cinco estudantes. Os oito eram estudantes da USP, da PUC-SP e da Universidade Federal de São Carlos e quatro deles trabalhavam também como metalúrgicos no ABC paulista.
A prisão e a incomunicabilidade dos oito estudantes foi o estopim para a mobilização estudantil. A primeira semana de maio foi marcada por greves, assembleias, protestos organizados pelos DCEs da PUC-SP e da USP que organizaram também uma passeata com a presença de milhares estudantes de diversas universidades do Estado de São Paulo, ocorrida em 5 de maio.
A passeata começou no Largo São Francisco, com cerca de três mil estudantes e quando chegou ao viaduto do Chá², já contava com aproximadamente dez mil estudantes portando cartazes com as palavras de ordem “Anistia aos presos políticos”, “Pelas liberdades democráticas” e “Libertação imediata dos estudantes presos”. Ao encontrar um forte esquema policial montado pelo coronel Antonio Erasmo Dias, foi a primeira vez em nove anos que os estudantes confrontaram diretamente a polícia. Daí em diante a repressão às mobilizações cresceu e as emissoras de rádio e televisão foram proibidas de divulgar notícias sobre as manifestações estudantis, bem como o Ministério da Justiça ordenou a todos os governadores que impedissem passeatas e manifestações em locais públicos.
No 4 de junho de 1977, estava prevista a realização do III ENE na Universidade Federal de Belo Horizonte - UFMG, para o qual se esperava o comparecimento de cerca de dois mil delegados estudantis. As autoridades militares haviam permitido os ENEs anteriores, mas por temer que o III ENE aprovasse proposta de refundar a UNE, decidiram impedir sua realização. Por isso, o governo do Estado de Minas armou um esquema de policiamento preventivo junto com outros Estados³ e várias delegações estudantis foram impedidas de chegar à capital mineira, enquanto estudantes que conseguiram chegar à capital foram detidos. Centenas de estudantes foram presos e encaminhados para o DOPS para serem interrogados, o que gerou uma onda de protestos estudantis por todos os países, como foi o caso da PUC-SP.
Outro foco de preocupação dos militares foram os preparativos dos Comitês 1° de Maio pela Anistia para o Dia Nacional de Luta, programado para acontecer no 15 de junho de 77.
Foi em São Paulo que ocorreu a repressão policial mais violenta do país 4. A concentração dos estudantes liderada pelos DCEs-Livres da PUC-SP e da USP e pelo Comitê 1° de Maio Pela Anistia, estava marcada para o Parque Dom Pedro II5. O Secretário de Segurança Pública de São Paulo, o coronel Antonio Erasmo Dias, montou um impressionante cerco policial com 32 mil policiais militares, policiais com cães pastores, caminhões com jatos de água, carros blindados, bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e um equipamento luminoso capaz de provocar cegueira momentânea.
Em virtude do enorme esquema policial, as autoridades militares não acreditavam na possibilidade de alguma mobilização estudantil naquele dia. Contudo, os estudantes se infiltraram nas filas dos ônibus e se misturaram à multidão de pessoas e antes que os policiais pudessem perceber, formaram um aglomerado de 1500 manifestantes que saíram em passeata pela Rua 25 de março com a bandeira nacional e uma faixa pedindo o fim da repressão, cantando o Hino Nacional e o Hino da Independência. Os estudantes foram dispersados, alguns foram detidos, e outros se espalharam pelas ruas do centro, mas momentos depois se reuniam em grupos de cem até quinhentos estudantes, realizando novas passeatas em vários pontos da região central. Assim, as manifestações do Segundo Dia Nacional de Luta chegaram ao fim na capital paulista com um total de 91 pessoas detidas.
Com a chegada das férias, a mobilização estudantil diminuiu e a atenção das autoridades militares voltou-se novamente para a UnB e também para a realização da 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) programada para ocorrer em Fortaleza, na segunda semana de julho. Temendo as críticas ao governo e o apoio à oposição por parte dos cientistas reunidos, as autoridades militares proibiram a realização do evento nas dependências de universidades federais, além de lhe negar apoio financeiro. O presidente da SBPC ainda tentou buscar apoio das universidades estaduais, mas não obteve sucesso, pois o reitor da USP, na última hora, recusou sediar a reunião. O problema da sede da 29ª SBPC foi resolvido, contudo, com a permissão de Dom Paulo Evaristo Arns para que a reunião se realizasse nas dependências da PUC-SP, que acabou por ocorrer entre o 6 e 13 de julho 1977, com grande apoio dos estudantes e professores.
Ao recomeçar o semestre, a crescente mobilização estudantil e as inúmeras assembleias em diversas faculdades de da USP e da PUC-SP em São Paulo indicavam que os estudantes pretendiam desafiar as autoridades militares, realizando manifestações públicas programadas para o terceiro Dia Nacional de Luta, no 23 de agosto de 1977 . Mais uma vez o coronel Erasmo Dias armou um cerco com 20 mil policiais militares em torno do Largo Paissandu, local para onde estava prevista a concentração estudantil. Mais uma vez os estudantes se valeram da estratégia de criar agrupamentos nas ruas e avenidas e posteriormente convergir formando passeatas relâmpago. As manifestações-relâmpago e a violenta repressão policial6 contudo, transformaram o centro em um cenário de guerra por cinco horas. Do alto de prédios chuvas de papel caiam em apoio aos estudantes. Neste dia, muitos estudantes ficaram feridos e 197 foram detidos.
A violenta repressão policial no terceiro Dia Nacional de Luta, em São Paulo, ganhou repercussão nacional: parlamentares discursaram na Assembleia Legislativa de São Paulo e no Congresso Nacional, condenando a violência utilizada nas ações policiais. O ministro da Educação, Ney Braga, defendeu a ação policial, alegando que as manifestações foram lideradas por uma minoria de estudantes irresponsáveis.
O anúncio, portanto, de que os estudantes pretenderiam realizar o III ENE em São Paulo, no 21 de setembro, provocou uma grande operação policial, bloqueando-se os acessos à capital paulista já na tarde do dia 20 de setembro. Os estudantes, contudo, realizaram uma série de manifestações relâmpago na capital paulista, cuja intenção era despistar a polícia do plano de realizar o III ENE na PUC-SP. No 21, a USP, a FGV e a PUC-SP estiveram cercadas por tropas policiais. Ainda assim os estudantes mantiveram a estratégia de desviar a atenção dos policiais e pouco antes das nove da manhã, cerca de 200 estudantes se concentraram em um trevo de acesso à USP, gritando palavras de ordem contra a ditadura. Os manifestantes foram impedidos de entrar na cidade universitária pelos policiais e se dirigiram à Faculdade de Medicina da USP, em Pinheiros, e ao chegar lá, no Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), lançaram um falso comunicado de que estavam iniciando a reunião do III ENE. Rapidamente o coronel Erasmo Dias cercou a Faculdade e ameaçou invadir o local caso os estudantes não se retirassem imediatamente dali 7. Após negociação, os estudantes saíram do local, de braços dados. 210 estudantes prestaram depoimento no DOPS e em seguida foram liberados, pois entre eles se encontraram pouquíssimos estudantes vindos de outras partes do país. De fato, a reunião na Faculdade de Medicina da USP era apenas uma encenação para distrair as autoridades policiais enquanto os militantes estudantis preparavam a reunião do III ENE para o dia seguinte, 22 de setembro, nas dependências da PUC-SP.