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TUCA

DO AUDITÓRIO TIBIRIÇA AO TUCA





Idealizado desde 1957 como espaço de solenidades da Universidade, tendo sua construção, com projeto do arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, iniciada em 1961, o TUCA foi inaugurado em 22 de agosto de 1965. Originalmente, o conjunto TUCA era composto por dois teatros: o auditório Tibiriça, depois conhecido como TUCÃO, situado ao nível da Rua Monte Alegre, com capacidade para 1200 pessoas, e o auditório Dom Paulo de Tarso, o TUQUINHA, com 300 lugares. Ainda completavam o conjunto o Salão Beta, as instalações esportivas e o restaurante universitário.

Desde os momentos anteriores a sua inauguração, os usos do teatro foram tema de disputa entre as autoridades universitárias, que o queriam como um espaço de solenidades acadêmicas, e os estudantes, que o concebiam como um espaço artístico de criação cultural e resistência política. O uso do Teatro pelo grupo composto por estudantes da universidade consolidou a vitória das concepções propostas pelo movimento estudantil e o auditório Tibiriçá transformou-se em TUCA pelo uso do espaço feito pelo grupo de teatro formado em 1964 pelo Departamento Cultural do DCE da PUC-SP.

Segundo depoimentos de Antonio da Costa Ciampa, então estudante de psicologia e presidente do Diretório Central dos Estudantes em 1964, e de Antônio Mercado Neto, então estudante de direito, membro da diretoria do Centro Acadêmico 22 de agosto em 1963 e do DCE em 1964, naquele ano, iniciou-se a organização de um grupo de teatro universitário, ainda independente do espaço do futuro teatro. Articulado à concepção política de formação dos Centros Populares de Cultura propostos pela UNE, o TUCA- Grupo de Teatro da Universidade Católica - foi proposto como caminho possível de atuação e união do movimento estudantil das faculdades que então compunham a PUC-SP. Segundo Ciampa em depoimento ao jornal Porandubas 32, na edição de setembro de 1980:

O TUCA surgiu do Departamento Cultural do DCE. (...) A ideia de formar o TUCA nasceu numa viagem que fiz ao Rio junto com Mercado. Era início de 1964. Íamos ao Congresso das entidades estudantis católicas do Brasil. O Mercado já participava do movimento de teatro, fundou o grupo na São Bento, apesar de ele ser do Direito. Sugeri ao Mercado ampliar o grupo para a universidade, ele topou e começamos a concretizar as possibilidades.”

Ainda neste depoimento o então presidente do DCE indica que:

“O Movimento Estudantil sustentou e participou intensamente do grupo TUCA, que era a expressão dos anseios de participação e de criação dos estudantes. Em 64, até 68, a política estudantil era muito intensa [...], A tônica era a luta contra a Lei Suplicy, que provocou o surgimento de entidades livres [...]. Em torno do TUCA havia muitas atividades, grupos de estudos e pesquisas. Naquele momento, a PUC foi um ponto de referência cultural e política.”


Foto encenação de Morte e Vida – Acervo CDM-TUCA


Então, com o uso de um terço da verba do DCE e ajuda de Nagib Elchener, presidente da Comissão Estadual de Teatro, foram contratados seis profissionais do teatro, vários deles ligados a grupos católicos de esquerda como a JUC – Juventude Universitária Católica e a AP – Ação Popular. Dentre estes profissionais contratados estavam Roberto Freire, teatrólogo de prestígio, ex-diretor do Serviço Nacional de Teatro durante a gestão de Darcy Ribeiro, ex-redator do Jornal Brasil Urgente da Ação Popular, que assumiu a direção artística do grupo; Silney Siqueira, ator e diretor ligado aos trabalhos de educação popular que foi o diretor de Morte e Vida; Elza Lobo educadora popular; José Armando Ferrara, que assumiu a cenografia e Chico Buarque, jovem compositor, então conhecido como carioca e estudante da FAU-USP e que assume a direção musical. Também foram organizados cursos para os estudantes visando à formação do grupo TUCA. O curso previsto para trinta estudantes recebeu mais de 150 inscrições e, dentre estes estudantes, foram selecionados os que formariam a primeira composição do Grupo TUCA e que, já naquele ano, inicia os ensaios de “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo e Neto. A montagem da peça e a repercussão do espetáculo marcaram fortemente a trajetória do grupo. Seu elenco era formado em sua quase totalidade por estudantes das várias faculdades da Universidade.




As informações contidas no ofício do DCE enviado ao então reitor, Prof. Oswaldo Aranha Bandeira de Melo, apresentando o texto da peça e solicitando autorização para sua encenação no Teatro, indicam que:


“participarão do espetáculo, como atores, mais de 40 alunos, mas é incontável o número de colegas nossos que trabalham nas ações de cenografia e análise do texto sob o ponto de vista sociológico, literário, psicológico, etc., isto graças à colaboração dos professores da Faculdade São Bento.”

Também em entrevista ao jornal Porandubas 32, Henrique Suster, superintendente do teatro em 1965, indica que:

“o grupo era formado em grande parte pelo pessoal da São Bento, do Direito, um pouco do Sedes e, de Sorocaba, só o Wolf.” Todos se envolveram na montagem da peça. “O curso de Letras fez o levantamento de toda a obra de João Cabral; o de geografia fez uma pesquisa sobre a vegetação e topografia do nordeste. [...] O curso de Psicologia pesquisou o homem nordestino, [...] O curso de Ciências Sociais explorou o potencial de denúncia. O curso de Direito colaborou na parte estatutária do grupo...”


Os ensaios da peça tiveram início antes da conclusão das obras do Teatro, mas logo após a inauguração do auditório Tibiriça, em 28 de agosto de 1965, o Grupo já passou a ocupá-lo. “Morte e vida Severina” estrearia em 11 de setembro de 1965. O espetáculo foi um sucesso e gerou repercussão em amplos setores culturais da sociedade, sendo premiado pela Associação Paulista da Crítica de Teatro.

A apresentação no Festival de Teatro Universitário Nancy (França), em maio 1966, e a conquista do primeiro prêmio do festival, as apresentações na França e em Portugal e as repercussões após o prêmio, na imprensa estrangeira e nacional, como indicam noticias da imprensa e fotos diversas sobre a viagem do grupo no exterior, fortaleceram e consolidaram o trabalho do Grupo. Em sua volta ao país, o Grupo TUCA viveu uma experiência cultural intensa entre os anos de 1965 e 1970. Voltado para o teatro nacional popular e com a proposta de formação de públicos para o teatro universitário, assumindo um repertório experimental de contestação e de criação coletiva, com mudanças na composição e direção artística, o Grupo continuou ativo até o final da década, sofrendo em vários momentos com a repressão à suas atividades. Registre-se, inclusive, que no dia anterior a viagem para França um dos integrantes do grupo, Manoel , foi preso devido a uma atividade de panfletagem em São Paulo. Para além da repressão direcionada a diferentes membros do grupo, o próprio TUCA e as apresentações de Morte e Vida e outros espetáculos sofreram várias ameaças da repressão dos grupos de direita. De acordo com o primeiro administrador do TUCA, Jorge Eugênio Alves, em depoimento ao CDM TUCA , naquela época era recorrente o teatro receber telefonemas com ameaças de explosão em pleno espetáculo de casa cheia.




Foto encenação de Morte e Vida – Acervo CDM-TUCA


Ainda nos anos 1960, o Grupo TUCA apresentaria as peças O & A em 1967, que como atestam o parecer do Capelão e noticias da imprensa , teve problemas não só com a censura da ditadura como com as autoridades da universidade; Comala, em 1969, e “Terceiro Demônio”, a partir de 1970, que foi uma das finalistas do Prêmio Universitário do Teatro Sul Americano. No entanto, após 1968, com o aumento da repressão política ao grupo, que sofreu inúmeras prisões de seus membros que atuavam na peça O&A, e a desarticulação do Movimento Estudantil, o Grupo TUCA experimenta um progressivo descenso. Em 1971, com crescentes divergências internas e falta de apoio da Universidade, rompe-se a ligação entre o Grupo, o Teatro e a Universidade. Sobre este período, a falta de apoio da reitoria e a crescente repressão ao Grupo, Roberto Freire relembra:

“O TUCA foi exterminado depois de O&A por prisões, era preciso fechar o grupo. A perua policial encostava no teatro e prendia 6 atores antes da peça. Daí passaram a prender 11, e os outros atores ficavam apavorados e o grupo foi acabando. Quando o TUCA fez 10 anos tentamos comemorar mas não tivemos nenhum apoio da Reitoria.” (Porandubas 32)

Não obstante tal rompimento, a militância de resistência cultural do Grupo TUCA e do Movimento Estudantil da PUC-SP definiria a identidade e marcaria a trajetória do teatro em todo o período da ditadura. Como aponta Antônio Mercado no Porandubas 32:

“O TUCA foi uma espécie de microcosmo das forças de oposição ao arbítrio [...] nasceu caracterizado por uma abertura à comunidade maior e para outros grupos: foi um grupo seminal, um Centro de Atividade Cultural. Ele cumpriu também uma função seminal que provocou a eclosão de vários grupos de teatro universitário em todo o Brasil”

Da mesma forma, na avaliação de Roberto Freire o TUCA e seu trabalho político-cultural era uma das únicas forças de resistência cultural no país quando a repressão conseguiu calar a Universidade e a Cultura Brasileira: “Nós fomos a primeira força cultural que conseguiu se organizar como anti-Revolução de 64, e a favor da liberdade: era um grito de protesto”. ( Poranbubas 32)